Isso aqui é o moderno "Big Brother" de George Orwell irmãozinhos! O "Grande Irmão" do livro "1984". Quase uma profecia literária que se cumpre.
Há décadas os EUA, através de seus agentes e agências, têm espionado governos, instituições e indivíduos, de seu país e do mundo. Não pode ser surpresa que o façam hoje através deste canal de comunicação, a Internet.
A própria Internet nasceu de um programa de transferência de informação do Pentágono, a ARPANET ( Advanced Research Projects Agency Network); a primeira rede operacional de computadores à base de comutação ou permuta de pacotes de dados.
Os softwares e hardwares que usamos foram, em sua maioria, criados no Vale do Silício (Califórnia) e nas universidades da “Ivy League”, na Costa Leste americana: Universidades Brown, Columbia, Cornell, Dartmouth, Harvard, Pensilvânia, Princeton e Yale; com a colaboração extra de "experts" geniais formados por elas, trabalhando isolados, além de inúmeros "geeks", "nerds", "hackers", "dweebs" e "dorks" cooptados pelo governo americano. Eles possuem os scripts, os layouts, as chaves, os códigos, os programas, as linguagens e os protocolos de uso e acesso. E poucos escrúpulos em usá-los para fins escusos...
Já na década de 1940 os americanos estavam desenvolvendo a Teoria Cibernética e a Teoria dos Jogos, trabalhando sobre os princípios da eletrônica, da informática, da automação e da comunicação de massas e mídias. Não foi desperdício de tempo e de recursos, como ficou claro. Eles se mantêm como potência hegemônica e policial no mundo. Seus planos foram gestados logo após o término de 2ª Grande Guerra e já previam a manutenção de uma supremacia econômico-político-militar mundial duradoura.
Procure saber por onde circulam os assessores de Zuckerberg, e os demais "Yuppies" da NASDAQ, e o porquê de tanta "generosidade" em nos oferecer um sofisticado site de 'relacionamento' gratuito, e perceberá o "X" da questão.
Os figurões são frequentadores assíduos de repartições e agências “pardas” do governo do EUA. Tudo se torna óbvio.
A sacada é a seguinte: “eles” nos fornecem entretenimento “gratuito” (se quisermos pagar, eles aceitam de bom grado!) em forma de softwares e/ou sites de entretenimento (Facebook, Red Tube, Winamp, Antivírus, MSN, YouTube, Yahoo, Google, Wikipédia, WikiLeaks, Ares, etc, etc, etc.), e nós, em troca, lhes contamos sobre nossas vidas: gostos, preferências, alianças, paranoias, neuroses, anseios, sonhos, preocupações, etc, etc, etc. Sem comentar as conversas nas janelas de “bate-papo”...
E assim eles detêm o maior poder possível: o poder da informação!
E o quê eles filtram e analisam afinal? Não são simplesmente “as palavras”. É o que elas representam: “macrotendências” e “microtendências”! É aqui que reside o interesse monitorizador e vigilante norte-americano.
Hoje, informação é poder. Foi através da manipulação do poder da informação que a Imprensa se tornou o 4º poder. A Internet vem sendo chamada de 5º poder!
Estas seriam as macrotendências: Onde haverá guerra? Qual governo cairá? Qual a provável duração de um regime político ou de uma guerra? Que tipo de armamento poderá ser usado? Para qual lado do espectro político pende determinado governo ou regime? Como se dará a ascensão ou queda de determinadas classes sociais? Qual as chances de uma intervenção lucrativo em determinado país? Qual o grau de risco em determinados mercados? Qual o risco de separatismo e guerra civil numa região? Onde poderão ocorrer possíveis sublevações e convulsões sociais?
Tendo acesso a estas informações, os investidores e o governo norte-americano podem se precaver, se adiantar, “prever” e “preparar” seu parque industrial, seus recursos, suas forças armadas, suas reservas e seus ativos para suprir os combatentes, os aliados ou/e seus simpatizantes; podendo, por exemplo, produzir armamentos com antecedência e depois fomentar seu uso... Como no caso Irã/Contras...
Eles buscam também, paralelamente, microtendências.
Estas são preferências, gostos, estilos e modismos locais e regionais. Assim podem vender o que as pessoas querem comprar; podem produzir em Hollywood o que se gosta de ver por determinada faixa etária, e em determinadas regiões, sociedades e culturas.
Deste modo, eles se asseguram em aplicar seus capitais em investimentos de alto ganho e baixo risco; podendo, por exemplo, produzir e aprimorar drogas psicoativas e também seus antagonistas anti-psicóticos para abastecer as sociedades neuróticas do mundo industrializado.
Conhecendo e influenciando nosso estilo de vida, ou pelo menos o estilo de vida da parte mais afluente das populações, qual seja, aquela que tem acesso ao mercado consumidor, à instrução, às redes de transmissão e partilha de dados, e rendimentos para adquirir "supérfluas quinquilharias indispensáveis”.
De posse da orientação atualizada destas propensões psicológicas e sócio-políticas, eles expandem seu mercado, continuamente drenando as riquezas do mundo, se equilibrando no topo instável e precário do sistema econômico global...
É a METÁSTASE CAPITALISTA. Imperial, ela vai indo, indo, indo... Alastrando-se... Corroendo sociedades, culturas, tradições e princípios éticos. Devorando seres, recursos e almas...
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
terça-feira, 14 de maio de 2013
PUNHAIS E PICANHAS
O que me estraga é essa tal ironia. Não que isso seja um
defeito, mas ainda assim acaba por ser indigesto, ou cômico, a depender de quem
observa.
Ser irônico é como amolar um punhal, de um lado sarcasmo e
do outro perspicácia. O problema é que as vezes acabo por cortar a carne usando
sarcasmo quando deveria usar o outro lado e vice versa.
Eu poderia fazer picanhas com coxão duro, mas elas deixariam
em minha língua um ranço de pobreza de espírito e então prefiro me abster deste
mistifório.
E no final, acabo por dar aquele sorrisinho de canto de
boca, como quem gosta do mal feito e sigo a terminar o dia acomodado na fumaça
de um cigarro assistindo a banda passar...
Não pensem os senhores que tal predileção me é própria. É
apenas o gosto do tempo.
Rafael Guerreiro
domingo, 21 de abril de 2013
NOS BASTIDORES DA MENTIRA
Há várias modalidades de pessoas
mentirosas. Mas a pior delas é aquela que acredita na mentira que está
contando. Traiçoeira e dissimulada, nutre suas mentiras com tanta convicção que
chega a mesclar sua realidade com o seu mundo de ficções, criando assim uma
terceira via nos moldes de seus interesses mais obscuros.
Há que se ter muita cautela com
pessoas assim, porque não é difícil que ela faça a sua imagem descansar aos
cuidados do chão. Também não custa muito e pessoas de um determinado círculo
passarão a lançar contra você um olhar aterrorizador, porque ao destilar a mentira
o mentiroso acrescenta em seu tubo de ensaio o melhor de si e extrai em seu
erlenmeyer o pior da vítima, criando assim um Frankenstein argumentativo nada
salutar para quem sofre o processo.
Imagens de outrora, gestos e
hábitos ou até mesmo objetivos declarados, tudo entra na dança e serve ao
mentiroso como matéria prima de suas alucinações, demonstrando que entre ele e
as informações de que se utiliza há tão somente uma relação parasita.
Pouco importam os antigos laços,
pouco importa a opinião alheia. Tudo deve servir ao propósito maior de exaltar
a realidade que o mentiroso necessita fazer existir, porque se do contrário
for, ele mesmo não existe e assim o seu mundo particular perde qualquer
sentido. Daí a necessidade de expor a mentira, sua obra prima, para que todos a
vejam, para que todos lancem seu aval tácito e assim coroarem o mentiroso com
gestos de aprovação e moções de apoio.
Diante de um veneno tão bem
inoculado, por vezes a vítima acaba por não saber o que fazer e comete o erro
de tentar retrucar a mentira. Ledo engano...Mal sabe ela que assim a encrenca
se amplia. Há certas situações que demandam tão somente o silêncio. Impassível,
no primeiro tempo se mostra fraco e impotente, mas quando aplicado de forma
determinada, revela-se a contraface que escancara as ânsias do mentiroso,
fazendo-o se recolher, ao final, à insignificância de suas opiniões maquiadas.
Rafael Guerreiro
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Muito Barulho
O Feliciano é realmente uma pessoa ímpar no cenário político. Carismático entre os seus, arrebanha multidões em enormes cultos evangélicos. Possui ótima oratória e um raciocínio rápido, elegante e lógico, conseguindo convencer milhares de pessoas. Ele maquia com maestria questões difíceis de serem digeridas por pessoas que não comungam de sua crença religiosa ou de seu posicionamento político.
As vezes fico a pensar como pessoas negras ou mestiças ou com orientação sexual diversa daquela por ele aceita ainda conseguem frequentar os cultos religiosos por ele liderados depois de declarações aberrantes proferidas em desfavor destas mesmas pessoas. O fato é que tudo reside no poder da oratória e na disposição alheia de desejar uma palavra capaz de salvá-la a qualquer custo de um mundo extremamente inóspito e causador de uma profunda sensação de estranhamento.
Curiosamente, Hitler conseguiu o mesmo na Alemanha Nazista. Da mesma forma, com seu discurso extremamente bem arquitetado, com profundo senso lógico e oratória impecável convenceu milhares de pessoas a compartilharem de uma ideia de mundo profundamente excludente e segregante. E muitas, mas muitas pessoas mesmo se sentiram amparadas dentro da esquizofrenia hitleriana.
Feliciano se diz amparado pela Bíblia, interpretada a seu bel-prazer, servindo às suas distorções particulares e inclinações sem muito pudor. Hitler, sem se dar conta de sua megalomania, mergulhava cegamente em sua eugenia iluminadora da humanidade.
O que vejo em comum entre esses dois personagens curiosos é que ambos se sentem verdadeiros portadores da verdade suprema que, na sua visão particular, se fosse aceita por toda a humanidade nos conduziria à iluminação e comunhão plena com o Sagrado.
E no meio de discursos inflamados, embebidos em lágrimas, suor e muita saliva que espuma pelos cantos de sua boca e também no microfone, Feliciano grita avidamente em favor de sua crença e contra a cor, dignidade ou, mais recentemente, contra o Deus de outras pessoas, trazendo no peito uma convicção tão contagiante que foi capaz de criar uma das maiores aberrações políticas de nosso tempo, o Deputado Feliciano, com mais de 200.000 votos e nenhum pensamento crítico.
Hitler tornou o mundo de sua época um pouco mais barulhento graças à sua artilharia disparada contra as diferenças alheias. Feliciano, por sua vez, torna, igualmente, o cenário político brasileiro um pouco mais barulhento com seus gritos e seu êxtase tão certos de si mesmo que nem se dá conta de como o mundo fica cada vez mais barulhento, cada vez mais barulhento, barulhento...
Rafael Guerreiro
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
DEUS E O DIABO DA TERRA DO CAMARADA STALIN
“Manuscritos não ardem”
Coisas estranhas acontecem na Moscou da década de 1930. O presidente da Massolit[1], Aleksándrovitch Berlioz, tem sua cabeça cortada em um atropelamento nada convencional, isso pouco antes de um estranho tipo ter lhe descrito como morreria. Mulheres recebem sapatos e roupas que desaparecem subitamente deixando-as nuas em plena rua. Um pavoroso gato preto bebe vodka, anda sobre duas patas e provoca terror no apartamento número 50 da Rua Sadôvaia. Dinheiro se transforma em rótulos de bebidas, poetas enlouquecem, pessoas desaparecem... É o diabo, o satanás em carne e osso, ou seja lá do que ele é feito, que resolve visitar a Moscou dos tempos de Stalin. E não está sozinho, vem com seu assustador, mas por vezes cômico séquito.
Em “O Mestre e Margarida” o escritor soviético Mikhail Bulgákov coloca tipos sociais bastante característicos da Moscou stalinista em um mundo fantástico, que para os leitores latino-americanos pode inclusive lembrar a Macondo de “Cem anos de solidão”. O romance demorou cerca de dez anos para ser finalizado e Bulgákov chegou inclusive a queimar o manuscrito original em razão da perseguição que sofria pelo regime soviético. Finalizado em 1940, semanas antes da morte do autor, “O Mestre e Margarida” ficou restrito apenas ao estreito e íntimo círculo de conhecidos de Bulgákov, pois seria impensável sua publicação naqueles idos. Sobrevivendo há duas décadas escondida, essa obra-prima de Mikhail Bulgákov foi publicada apenas na década de 1960 e mesmo assim, com cortes da censura.
O Mestre, a que faz referência o título, é um escritor perseguido e colocado no ostracismo pela imprensa e pela crítica soviética. Ao ter seu livro sobre Pôncio Pilatos recusado pela editora e se tornar alvo de perseguição, o Mestre entra em estado de profunda depressão e se interna em uma clínica psiquiátrica. Margarida é a esposa de um rico homem, porém, se apaixona pelo Mestre e por sua obra, dedicando-lhe toda sua existência, inclusive, entregando sua alma ao diabo para salvá-lo. Em razão desses elementos o romance de Bulgákov inevitavelmente traz a mente o Fausto de Goethe, porém, a história do Mestre e de Margarida é apenas uma entre tantas outras que se cruzam e intercruzam ao longo da obra. Inclusive, a amargura do Procurador Pôncio Pilatos por conta da crucificação é parte central do livro.
Mais que o romance entre Margarida e o Mestre ou o humor negro das situações inusitadas, a obra de Bulgákov é uma crítica contundente e refinada ao regime stalinista. Aliás, o Mestre parece ser o próprio autor colocando-se como personagem, pois tanto o Mestre como Bulgákov queimaram seus próprios manuscritos por conta da perseguição política. As pessoas que satanás e seus funcionários fazem desaparecer sem deixar rastro ou memória lembram muito os chamados “inimigos do povo”, que simplesmente “deixavam de existir no meio da noite”. Os documentos magicamente modificados, que aparecem, desaparecem e reaparecem, logo trazem a mente o falseamento da história pelo regime soviético.
Bulgákov morreu em 1940, porém, se não tivesse morrido, provavelmente teria morrido. A frase parece estranha e confusa, mas expressa bem o destino que facilmente o escritor teria naqueles anos de intensa perseguição política que precederam a Segunda Guerra. O próprio clima de “realismo fantástico” que permeia “O Mestre e Margarida”, por si só, mesmo que fosse o mais inocente dos romances, já constituiria uma afronta ao “Realismo Socialista” que o governo tentava impor à arte. Além disso, Bulgákov coloca a todo o momento algumas questões incomodas, como por exemplo, as lojas e restaurantes especiais, reservados apenas a alguns burocratas ou apoiadores do regime; a briga por vaga nos apartamentos coletivos; o “denuncismo”, que propiciava uma espécie de “Estado policial”, onde cada cidadão poderia estar sendo vigiado pelo vizinho, que na primeira oportunidade denunciaria o colega cobiçando sua moradia ou cargo. Enfim, se a obra tivesse sido publicada provavelmente não seria do agradado do camarada Stalin.
Aquele que conhece um pouco da história soviética vai se deliciar com a sátira do autor aos aspectos e tipos sociais específicos da vida moscovita na década de 1930. Porém, apesar do viés político que “O Mestre e Margarida” se permite ser lido, ele não se resume a isso. É uma obra-prima, construído com uma prosa fácil, humor sutil e cativante. Assim, mesmo um leitor pouco familiarizado com os aspectos políticos, vai se divertir com as peripécias de satanás e seus funcionários a solta em uma grande capital em pleno século XX.
Saymon de Oliveira Justo
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Simonov e a volta do “Eu”
A Revolução de Outubro de 1917 transformou praticamente todas as esferas da sociedade russa. A propriedade privada foi violentamente atacada; a economia passou a obedecer a uma nova lógica; as antigas relações sociais foram subvertidas; o que era certo tornou-se errado e vice versa; o bom transformou-se em ruim... E nesse novo mundo que estava sendo criado, a produção artística também não escapou incólume.
Já nos primeiros anos da Revolução muitos bolcheviques renegavam todo e qualquer resquício do passado imperial. Como Comissário da Guerra, Trotsky travou uma encarniçada luta no seio do próprio Partido contra seus camaradas que queriam expurgar do Exército Vermelho os oficiais formados nas academias do Czar. O mesmo Comissário perdeu boa parte do seu capital político em rusgas com setores do bolchevismo que pretendiam eliminar sumariamente toda “arte burguesa” e não menos sumariamente, forjar uma suposta “arte proletária”.
Conforme Stalin e seus partidários acendiam no Partido e no governo soviético, essa perspectiva de banir todas as “conquistas” das antigas gerações como velharias burguesas ganhou força. Se no final da década de 1920 a coletivização forçada do campo e a criação dos Kolkhoz (fazendas coletivas) representam a insanidade do regime em eliminar a pequena agricultura individual, anos antes os Kommunalkas objetivavam também o fim do modelo burguês de convivência. Os Kommunalkas eram apartamentos coletivos, onde várias famílias compartilhavam cozinha, sala, banheiro, enfim, constituía uma tentativa de eliminar o individualismo e a privacidade familiar, valores tidos como nocivos à nova sociedade.
A arte proletária também deveria banir o individualismo, assim, os novos poetas eram “incentivados” a louvarem o amor ao Partido, ao camarada Stalin e ao coletivismo. O antigo lirismo do homem por sua amada, ou vice-versa, passa a ser visto em princípio como fraqueza pequeno-burguesa e posteriormente como uma “arte inimiga” da nova sociedade e seus valores, podendo mesmo o artista ser enquadrado na categoria penal de “inimigo do povo”. Nesse contexto o regime soviético patrocinava cineastas, pintores, escultores, romancistas e poetas, transformando-os em soldados da nova cultura proletária, ou melhor, panfletistas do regime soviético.
Konstantin Simonov nasceu no seio da antiga intelligentsia russa e para apagar essa “mácula” em seu passado e ser aceito na sociedade soviética, ainda jovem Simonov rejeitou uma possível formação acadêmica e se matriculou em uma Escola de Aprendizes de Fábrica, as FZU, onde aprendeu o ofício de torneiro. Estudando durante o dia, Simonov trabalhava a noite montando cartuchos para rifles e a confiar em suas memórias, realmente se empolgou com o “espírito da Revolução”. Com a prisão do padrasto, Simonov trabalhou ainda mais para construir e fortalecer uma identidade proletária, pois só assim poderia camuflar suas origens burguesas e não terminar em algum preso em algum Gulag como inimigo do povo.
Na década de 1930 estava sendo construído o Canal do Mar Branco, uma obra que ligaria este ao Mar Báltico. Nessa obra foi empregada literalmente mão de obra dos prisioneiros dos gulags, que morreram aos milhares escavando o canal com as próprias mãos. Foi por esses tempos que Simonov escreveu alguns poemas sobre o caráter redentor do trabalho na vida dos prisioneiros políticos. Não se sabe exatamente como, mas esses poemas foram parar nas mãos dos agentes da OGPU (polícia política) e esse foi o início da carreira de Simonov como “poeta proletário”.
Konstantin Simonov foi um típico poeta a serviço do Partido e do Estado soviético. Recebia incentivos, regalias e orientações para se enquadras no Realismo Socialista e promover as conquistas e façanhas do regime. Tido por muitos como um poeta medíocre, Simonov conseguiu sobreviver e se destacar no mundo soviético em boa parte pelos serviços líricos que prestava ao regime. Com a invasão da União Soviética pela Alemanha nazista em 1941, Konstantin Simonov foi mandado ao front como uma espécie de correspondente de guerra e além de trabalhar contra o derrotismo, deveria escrever para levantar o moral dos “soldados vermelhos”. Apaixonado pela atriz de cinema Valentina Serova, Simonov escreveu “Espere por Mim”, talvez seu mais belo poema.
Mas a verdadeira importância de “Espere por Mim” é o rompimento que representa com o “Realismo Socialista”, trazendo novamente à dignidade àquele amor romântico entre duas pessoas. Soldados compilavam o poema e repassavam aos camaradas; recitavam nas trincheiras e mandavam em cartas às suas amadas. Finalmente Simonov se tornava Poeta, sentindo as dores do homem comum, traduzindo-as em poesia e a elevando à dignidade lírica.
“Espero por Mim” foi o primeiro grande sinal essa mudança estética. O poema conjugava um mundo privado de relacionamentos íntimos independentes do Estado. Como foi escrito a partir dos sentimentos dos sentimentos de uma pessoa, tornou-se necessário para milhões. Com o barulho da batalha em todas as partes, com oficiais que gritavam e oficiais que latiam, o povo precisava da poesia para que ela tocasse suas emoções; o povo ansiava por palavras para manifestar a tristeza, a raiva, o ódio, o medo e a esperança que o agitavam. “Seus poemas vivem em nossos sentimentos”, escreveu um grupo de soldados para Simonov em 1945.[1]
ESPERE POR MIM
Espere por mim, que eu voltarei,
Mas tens de esperar muito
Espere quando a chuva amarela
Tristeza trouxer,
Espere quando a neve vier,
Espere quando fizer calor,
Espere quando os outros não esperarem,
Esquecidos do passado.
Espere, quando dos países distantes
Cartas não chegarem,
Espere, quando até se cansarem
Aqueles que juntos esperam.
Espere por mim, que eu voltarei,
Não perdoes àqueles
Que encontram palavras para dizer
Que é tempo de esquecer.
E se crêem, filho e mãe,
Que já não vivo,
Se os meus amigos, cansados de esperar,
Se sentam à lareira
E bebem vinho amargo
Para me recordarem…
Espere. E com eles
Não te apresses a beber.
Espere por mim, que eu voltarei
A despeito da morte.
Quem não me esperou,
Que diga: ‘Teve sorte!’
Não compreendem os que não esperavam
Como no meio do fogo
A tua espera
Me salvou.
Como sobrevivi, saberemos
Só tu e eu, -
É porque me soubeste esperar
Como ninguém mais
Konstantin Simnov
[1] FIGES, Orlando. Sussurros. A vida privada na Rússia de Stalin. Editora Record. Rio de Janeiro. 2012. P. 463.
domingo, 30 de dezembro de 2012
IRMÃ DAS ALMAS
Ela se achega com sua cadeira
espaçosa e se põe no meio da gente e nem pede licença.
Vem escondida no dia-a-dia, na
cadeira de sol e no banco da praça, no espelho e nas escovas de dente. Vem por
si mesma diluída naquilo que ousamos chamar de razão, no senso nada bom criado
a troco de nada.
E todo mundo tem um pouco dela
como semente. Nada lhe foge aos ouvidos, não há nada capaz de recusar seu
autógrafo. No seio da gente ela brotou, como uma irmã gêmea, tão nossa quanto
nós mesmos, e se de um lado a razão que criamos parece nos indicar o caminho,
por ela brota a dúvida e a certeza num mesmo cálice doce e amargo no qual
bebemos do cotidiano alucinado de tantos argumentos toscos quanto nossa
imaginação pode criar.
É um disparate, mas é nós mesmos,
oras bolas. É ela quem negamos, mas que desejamos assim tão forte nos sonhos,
como orates que somos.
Pois é, se de um lado a razão nos
beatifica, por outro, a loucura, companheira nossa, trata de calcificar a vida,
mesclando sonhos com cimento e ilusões com lágrimas aqui mesmo dentro da gente,
de onde brota o sorriso e choro, tão nossos quanto é a nossa capacidade de chorar
quando queremos rir e rir quando queremos chorar.
Rafael Guerreiro
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
EVENTO COTIDIANO
Neste final de semana algo inusitado ocorreu comigo em uma das minhas diligências. Fui chamado às pressas pelo Diretor do cartório em que trabalho para "tapar um buraco" deixado por outra oficiala de justiça que simplesmente desapareceu no dia de seu plantão judicial. Tratava-se o caso de uma cautelar de separação de corpos. O "burro" aqui acabou atendendo o telefone e terminou o sabadão dando uma de exorcista do TJ, porque tive que tirar de dentro de casa uma assombração que gosta de bater em mulheres. Pois bem, de posse do mandado, me dirigi ao endereço indicado a fim de exorci...ops!, cumprir a medida cautelar. Chegando ao local, fui recebido justamente pelo réu, que naquela ocasião me tratou muito bem, inclusive, ofereceu até cafezinho! Com muita educação e respeito, disse a ele o teor do mandado, informando-o de todas as suas consequências. O réu não se assustou, pelo contrário, até deu risadas porque disse que sua ex-amásia já não morava naquele local. Disse ainda que já estava até de namorada nova!!! Pedi a ele que informasse o novo endereço da autora para que eu a encontrasse, o que prontamente foi atendido. Assim, me dirigi ao novo endereço da autora acreditando que faria tão somente a intimação da data da audiência e pronto, mais um mandadinho pro balaio!!! Foi quando ela manifestou a mim o desejo de regressar ao seu antigo lar. Pois bem, voltei juntamente com ela ao endereço do réu e, estando lá, informei a ele da necessidade agora de se retirar do lar imediatamente. Antes, contudo, tratei de amenizar seu psicológico, dizendo que aquela medida era ordem emanada do juiz e que eu não tinha qualquer interesse em vê-lo desinstalado de sua moradia. O rapaz recebeu a notícia de cabeça baixa e face estanque, sem manifestar qualquer emoção. Foi quando, de súbito, disse que não sairia do local e pronto. Disse a ele então que eu seria obrigado a chamar a polícia e que tal atitude lhe causaria sérios problemas futuros...Diante do que falei, ele simplesmente disse então que antes de sair iria quebrar a casa toda e lançou mão de um pedaço de madeira. Naquele momento, achei que o cara iria me partir no meio, mas ele entrou na casa e pôs-se a destruí-la em fúria incontrolável. Comecei a ligar pra polícia pelo número 190, mas fantasticamente eles não atendiam o telefone. Enquanto isso, o cara destruía a casa da autora e gritava todo tipo de injúrias lá de dentro. A situação era surreal, o cara quebrando tudo, a mulher chorando desesperada do meu lado e a polícia não atendia o telefone...Eu já tinha saído de perto e, inclusive, até mudei o meu carro de lugar rsrs! Foi quando o cara simplesmente cansou de praticar basebol com os vasos de sua ex-amásia e resolveu pegar seus parcos bens: uma TV velha, e pelo que vi, 2 pares de meia, uma calça surrada e 2 pares de sapato. Ao sair, após xingar seu desafeto por quase 5 minutos ininterruptos, olhou para mim e disse que não era nada comigo, pediu até desculpas. E saiu com seu carro como se nada tivesse acontecido...Complicado, não acham? Depois dessa, e com um calor de 35 graus, só mesmo tomando uma gelada pra esfriar o sangue...
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
A saga da caveira.
Numas de
achar que poderia o prazeroso ao agradável somar, o paulistano resolveu no mar
se aventurar. Atracado no porto de Santos estava um enorme cargueiro, junto a
outras embarcações, que em breve seu compartimento de cargas na China iria
abarrotar, com produtos pirateados, “dumpings” e falsificações.
O gaiato
aventureiro esperou a noite baixar e enquanto a tripulação chinesa se esbaldava
na zona portuária, ele atravessou a ponte de acesso e entre os contêineres foi
se ocultar. Satisfeito ele pensou: “-Quando chegarmos ao Havaí dou um jeito de
cair fora! Vou viver de pernas pro ar...”.
E sentiu que seus dias de motoboy em Sampa eram agora coisa de outrora!
O navio
já estava há dias em alto mar quando um marujo de Shangai avistou o penetra
lazarento. Ele foi pego no convés, ao relento, enquanto vomitava no mar lá de
cima da amurada, todo encardido e fedorento. Seu azar foi que o navio pertencia
a uma facção da “Tríade”, a máfia chinesa, que se autodenominava “Bandana
Suarenta”. A “saga da caveira” teve então início, assim, bem confusa e nojenta.
Os
chineses, “comunistas de mercado”, acharam que o brazuca era um espião norte-americano
disfarçado de “chicano”, sacaram o golpe
que o suposto “yankee” queria aplicar e amarraram o malandro, já em lágrimas,
com correntes e cadeado. A orgia de porradas continuava enquanto o marujo
maoísta atava o brasileiro bicão à uma ancora pesadona da embarcação; não sem
que antes ele sofresse brutalidades ao estilo da sádica máfia do Cantão...
Uma
sardinha curiosa, ainda fora da latinha, viu toda a patifaria, mas nada podia
fazer pelo infeliz intruso brasileiro que tinha entrado numa fria. Além do
mais, já estava calejada de tanta pirataria, coitadinha, e sabia que seu
destino também não era dos melhores: iria terminar sua existência exposta numa
vitrine de peixaria.
Antes que o capitão da nau gritasse em
mandarim um “-Não façam isso seus cornos!!”, lá da torre de comando, o paulista
vacilão já tinha virado isca de peixe marinho e petisco de tubarão. E a mutação
do moço não parou por ai não. Enquanto a ancora baixava nas profundezas da
Fossa das Marianas, a 11 mil metros de profundidade, o molecote ia se
desfigurando e perdendo os caracteres de sua identidade; maior azarão.
A
pressão estrambólica, a fria escuridão e as bizarras criaturas do leito
oceânico também não fizeram bem ao corpo do imaturo jovem da Mooca não... Antes
tivesse, ele pensou: “-(...)se conformado aos rigores de seu mundo continental,
construído nos moldes mentais de uma elite burgo-europeizada e pós-oligárquica
(como dizia seu avô ítalo-anarquista!), a morrer longe de casa, no fundo da
água salgada”.
Alguns
meses mais tarde, seu esqueleto recoberto de cracas foi içado numa rede de
arrastão junto a ostras, enguias, linguados, barracudas, caranguejos e muito
salmão. Num ensanguentado barco pesqueiro japonês, seus restos foram
devidamente separados do que tinha valor comercial ou era saboroso; afinal era
todo o trabalho de um mês e o mar ultimamente não andava muito piscoso.
“-Deve
ter sido um jovem mestiço sul-americano”, declarou o perito forense edokko ao
policial encarregado do caso. “-A causa mortis foi afogamento, mas sofreu
tortura e espancamento antes de borbulhar seu último lamento!”, completou o
assistente de necropsia entediado, já pensando na hora do saquê com a namorada
gueixa. “-Ofereçam-no aos brasileiros, através do consulado”, disse, aproveitando a deixa, um
intrometido nissei emigrado, da limpeza do chão encarregado. “-Digam que pode
ser a ossada de um político perseguido, ou mesmo de um torturador que acabou
como arquivo morto; se eu não me engano, por lá estão oferecendo anistia geral,
tanto pra uns quanto pra outros!”
Diante
das observações perspicazes do 'expert' em Brasil, e da inconclusão adicional,o responsável pelo caso
anuiu. Iriam encaixotar a ossada e remetê-la ao “povo varonil”. O espirito do
coitado suspirou aliviado: "- Pelo menos não vou parar no lixão da
capital..."; o qual, na verdade ficava em outra nação, lugar onde se vende
o quintal, o subsolo e o espaço aéreo por um pouco de ração, como dizia
Raulzito...
A
caveira sorridente voltou voando para o sul do norte-americanizado continente,
e ao sobrevoar os Andes sentiu um 'arrepio na espinha' quando se lembrou da
famosa história do acidente aéreo, quando corpos congelados foram
canibalizados. “-Que triste sina a dos devorados”, pensou, se esquecendo de que
sua própria sorte não tinha sido menos dramática: “-Sou brasileiro nato, nunca
perco o otimismo!”, pensou o espectro-esqueleto num arroubo de ufanismo atrasado. Nosso tupiniquim não logrou êxito em sua psicológica tática...
O humor negro da caveira desnorteada logo se tornou azedo, assim que percebeu a
confusão que os orientais fizeram mais cedo. Na hora de embarcar o esquife improvisado em caixa de papelão, colocaram a 'Republica Argentina' como
destinatária do tumbão. Os japoneses, na correria pós- tsunami, confundiram a
ditadura que poderia ter feito o “serviço”, e desovaram a ossada na terra de
Gardel e Galtieri! Uma prova de que no mundo inteiro existe trapalhada e
embromação, até mesmo no Japão...
Pousaram
então com a carcaça e sua alma penada nas margens do Rio da Prata. Buenos Aires estava em festa! A energia imaterial logo sacou: "-Víxêêê..., isso não presta...!". Foda, ela chegou bem na hora em que rolava, entre as respectivas seleções do Brasil e Argentina, uma daquelas partidas de futebol que todo brasileira detestava; 3X0 pros "hermanos"... O fantasma da caveira amaldiçoou o Brasil, o
mar, a sardinha, os estrangeiros e a China.
Logo depois, num hangar do aeroporto
portenho, a caveira desencaixotada sorria desdentada e mau-humorada para os gringos doidões,
pensando desconsolada com seus botões: "- Eu mereço...; que sorte de merda eu tenho...”.
Dúdis.
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Da Física Moderna.
Da
Física Moderna.
Acelerador de partículas CERN 2. Suíça.
Acelerador de partículas CERN 2. Suíça.
Algo pode,
simultaneamente, “ser” e “não ser”? Pode, contanto que se elimine o critério
convencional de “tempo” absoluto, pois este foi criado para medir a duração das coisas
no fluxo eterno do suceder; e para se identificar o que “é” e “não é”,
precisamos, ao exemplo do Bóson de Higgs, reter a essência de seu significado no
exato momento antes dele “sumir”, ou precisamente depois dele “aparecer”. O que "é" no instante seguinte "foi", em nenhum momento conseguindo, de fato, se estabelecer.
Evento Bóson de Higgs, imagem computadorizada.
Então este algo
pode, em concomitância, “estar” e “não estar”? Pode, com a condição de que não
se tome como perspectiva para sua determinação apenas um único lugar em um espaço absoluto.
Compreender o paradoxo exige empenho, e predisposição para as contra-alegações convincentemente
refutar; além de múltiplos observadores para fenômeno tão volátil captar. Nada existe de imóvel no espaço relativo; pois ele, assim como o tempo, perdeu seu antigo e estável estatuto.
Sub-partículas
Mas se o “tempo” é
pura convenção humana, o que se mede “há tempos” nos relógios e metrônomos
neste universo fenomenal? O ritmo, o
compasso e a cadência musical dos objetos em sua dança etérea no palco infinito
do teatro celestial. Uma melhor percepção se adquire quando se abandona a ideia
do tempo como uma corrente linear e fluvial.
Bicho tempo.
E a “velocidade”? Diz
mais a respeito da aceleração ou inércia relativa e vetorial das coisas; ou
sobre nossa impaciência com a imobilidade e morosidade? A reposta surgirá em nosso espelho gradualmente,
enquanto nossa pressa intensifica o desgaste físico e a rápida cascata fluida dos
eventos imprime em nossa face o sinal da idade.
Velocidade supersônica e a condensação de vapor durante o arranque.
O que pensar da “luz”,
em conclusão? É simplesmente o foco de claridade diária generosamente fornecida
pelo nosso Sol? Ou é este excêntrico emaranhado teórico do “quantum de fótons”,
tanto partícula quanto onda, que o físico Einstein sugeriu em prol e
substituição da pendente ideia da eletromagnética radiação? O tempo enfim nos dirá!
Claro está, afinal, que o “certo e o errado” não significam o mesmo que o “bem
e o mal”.
Luz solar sobre nuvens.
Dúdis
Tozinsky Cobain.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Vencedores e perdedores do Câmbrico: anatomia e anomalia animal. Paródia Paleozóica das Olimpíadas de Londres. Agosto de 2012.
Acima, Colúmbia
Britânica, Montanhas Rochosas Canadenses. Xisto de Burgess.
Bem antes dos Tiranossauros se tornarem os seres dominantes na paisagem da fauna terrestre jurássica, vivendo no topo da cadeia alimentar, existiu no planeta uma fauna fascinante, exótica e diversificada. Ela é chamada hoje de “fauna câmbrica” pelos paleontologistas. Esta maravilha preservada em fóssil surgiu em um evento conhecido como “explosão câmbrica” (a cerca de 570milhões de anos atrás), o que em termos mais simples significa que a evolução operou intensamente na anatomia e funcionalidade dos animais, fitoplânctons e calcimicróbios[1] então existentes, produzindo repentinamente animais de formato, hábitos alimentares e reprodutivos radicalmente estranhos para os padrões de hoje.
É claro que eles não surgiram espontaneamente. Havia, presume-se, uma fauna prévia que serviu de ponto de partida para o surpreendente “boom” câmbrico. Contudo, como admitiu o próprio Darwin, as rochas sedimentares que porventura possam abrigar os fósseis destes antiquíssimos animais, preceptores das espécies câmbricas, são de difícil localização, podendo muitas delas estar neste momento no fundo dos oceanos. Isto não impede, é claro, que alguns “xistos"[2], ou depósitos de sedimentação contendo estes fósseis possam ser descobertos nas atuais placas continentais a qualquer momento. O estranho é que eles ainda não foram encontrados pela comunidade científica. Este problema gerou certo desconforto teórico à Darwin em seu tempo, e ainda gera expectativas nos geólogos e paleontólogos atuais. De fato, como “provar” a ascendência da fauna câmbrica dentro da teoria evolucionista se não se encontram registros fósseis que sustentem a teorização evolucionária? Estava aberta uma brecha para os defensores da“criação espontânea”!
Abaixo, representação gráfica da fauna câmbrica.
Do mesmo modo que surgiu, em um período relativamente curto em termos geológicos (termos estes que se referem a idade dos afloramentos rochosos terrestres), a fauna câmbrica foi extinta de modo fulminante, restando após a mortandade apenas 4% das espécies anteriormente existentes. Bem antes dos Tiranossauros se tornarem os seres dominantes na paisagem da fauna terrestre jurássica, vivendo no topo da cadeia alimentar, existiu no planeta uma fauna fascinante, exótica e diversificada. Ela é chamada hoje de “fauna câmbrica” pelos paleontologistas. Esta maravilha preservada em fóssil surgiu em um evento conhecido como “explosão câmbrica” (a cerca de 570milhões de anos atrás), o que em termos mais simples significa que a evolução operou intensamente na anatomia e funcionalidade dos animais, fitoplânctons e calcimicróbios[1] então existentes, produzindo repentinamente animais de formato, hábitos alimentares e reprodutivos radicalmente estranhos para os padrões de hoje.
É claro que eles não surgiram espontaneamente. Havia, presume-se, uma fauna prévia que serviu de ponto de partida para o surpreendente “boom” câmbrico. Contudo, como admitiu o próprio Darwin, as rochas sedimentares que porventura possam abrigar os fósseis destes antiquíssimos animais, preceptores das espécies câmbricas, são de difícil localização, podendo muitas delas estar neste momento no fundo dos oceanos. Isto não impede, é claro, que alguns “xistos"[2], ou depósitos de sedimentação contendo estes fósseis possam ser descobertos nas atuais placas continentais a qualquer momento. O estranho é que eles ainda não foram encontrados pela comunidade científica. Este problema gerou certo desconforto teórico à Darwin em seu tempo, e ainda gera expectativas nos geólogos e paleontólogos atuais. De fato, como “provar” a ascendência da fauna câmbrica dentro da teoria evolucionista se não se encontram registros fósseis que sustentem a teorização evolucionária? Estava aberta uma brecha para os defensores da“criação espontânea”!
Abaixo, representação gráfica da fauna câmbrica.

Os registros fósseis deste período de extrema experimentação, diversidade anatômica e funcional da natureza animal são conhecidos deste o início do século XIX, e seu representante mais conhecido é o muito estudado “trilobita”.
Acima, Trilobita fóssil.
Entretanto, o próprio trilobita é considerado membro de uma espécie de geração mais nova, pois esta surgiu no final da era câmbrica, pouco antes da massiva extinção ocorrida no início do período “ordovícico”(aproximadamente 520 milhões de anos no passado). Os trilobitas foram bem-sucedidos em sua era e seus fósseis são encontrados por quase toda a superfície terrestre, em sua respectiva camada geológica, sinal de que ele prosperou adaptativamente e se difundiu pelos oceanos do planeta de então. Mas antes do surgimento dos trilobitas, estranhos animais dominavam os mares e oceanos. Os animais da fauna câmbrica.
Abaixo, fauna e flora câmbricas.
A jazida contendo este tesouro
paleontológico foi descoberta pelo geólogo norte-americano Charles Doolitle
Walcott em 1909, mas só veio e ser estudada, compreendida e avaliada a partir
da década de 70 do século XX, quando os paleontólogos britânicos Harry
Whittington, Simon Conway Morris e Derek Briggs resolveram abordar com métodos
e aparelhos mais modernos os tesouros fósseis de Walcott, guardados no
Smithsonian Institution, USA, onde Walcott era administrador. O reestudo do
material sob novas condições de análise trouxe a tona perturbadoras
conclusões, conclusões estas que afetaram a própria ortodoxia darwiniana. Foi
como se os famosos “Manuscritos do Mar
Morto” fossem todos liberados para publicação, trazendo à tona informações
sobre a primitiva Igreja Cristã que contradizem a ortodoxia católica
contemporânea. Vejamos alguns dos “alienígenas” aquáticos encontrados
por Walcott nas Montanhas Rochosas Canadenses. Devemos nos lembrar que nesta
era remota a superfície terrestre estava desabitada.
Marella: animal abundante no Xisto de Burgess. Possuía um escudo cefálico com quatro espinhos voltados para trás, cerdas com penugem, patas locomotoras e compridas antenas. Não foram encontrados olhos neste animal. A principio foi relacionado como um antepassado dos trilobitas. Depois da revisão de Whittington, esta hipótese foi descartada. A simples “funcionalidade”, os hábitos alimentares e de locomoção não foram suficientes para estabelecer definitivamente o parentesco. Acabou sendo reclassificado como um filo independente de artrópode. Um filo animal isolado. Mas esta bela espécie não sobreviveu ao extermínio ordovícico-silúrico.
Abaixo, desenho de um exemplar do Marella.
Marella: animal abundante no Xisto de Burgess. Possuía um escudo cefálico com quatro espinhos voltados para trás, cerdas com penugem, patas locomotoras e compridas antenas. Não foram encontrados olhos neste animal. A principio foi relacionado como um antepassado dos trilobitas. Depois da revisão de Whittington, esta hipótese foi descartada. A simples “funcionalidade”, os hábitos alimentares e de locomoção não foram suficientes para estabelecer definitivamente o parentesco. Acabou sendo reclassificado como um filo independente de artrópode. Um filo animal isolado. Mas esta bela espécie não sobreviveu ao extermínio ordovícico-silúrico.
Abaixo, desenho de um exemplar do Marella.
Yohoia: gênero animal comum na jazida fóssil de
Burgess. Possuía um par de olhos e também um par de apêndices preênseis em frente à cabeça,
sinal de que era um predador e/ou necrófago, e não um depositívoro[3] como
o Marella. Nadava e não possuía patas ou membros locomotores, apenas alguns apêndices articulados logo atrás da carapaça. Apesar de semelhante em alguns aspectos aos modernos artrópodes, tinha características que o distinguíam claramente, como a citada carapaça cefálica bivalve, e as pinças dianteiras. Acabou classificado como
outro “filo” à parte. Outra supressa de Burgess. Sucumbiu na grande
extinção do ordovícico.
Abaixo, representação pictórica computadorizada de um Yohoia.
Abaixo, representação pictórica computadorizada de um Yohoia.
Opabinia: animal relativamente raro na jazida fóssil de
Burgess. Pouco maior que um dedo anular adulto. Possuía cinco olhos e uma
“tromba” que terminava em uma pinça dentada. Predador eficiente, o Opabinia
nadava à captura de presas com suas barbatanas laterais e caudais. Sua primeira
representação artística causou um riso de espanto e perplexidade no grupo de
especialistas reunidos em simpósio paleontológico. Era estranho demais..., um quase
alienígena. Hoje é tido como uma das mais interessantes criaturas que já
habitaram o planeta. Foi extinto na Grande Dizimação Silúrica.
Abaixo, o Opabinia.
Abaixo, o Opabinia.
Hallucigenia: um dos mais
curiosos animais do câmbrico. Sua singularidade anatômica é única. Simon Conway
Morris, que estudou o fóssil e também o “batizou”, diz ter escolhido o nome em
virtude de seu aspecto bizarro e onírico.
Em verdade, não se sabe ao certo onde é a frente ou o traseiro do
animal, seu lado de cima ou de baixo... Mesmo os especialistas se atrapalham ao
tentar reconstruir seus hábitos alimentares e de locomoção. A julgar pelas
estruturas funcionais encontradas em alguns animais marinhos de hoje, o
Hallucigenia viveria conforme se observa na imagem abaixo: cego e encravado
por seus espinhos no fundo de pântanos, lagoas e lagunas rasas, movendo-se
muito lentamente já que haviam articulações que ligavam os espinhos ao tronco do
animal. Há uma “cabeça” em um dos lados, ou melhor, um membro cefálico, sem
olhos, antenas ou boca(???). Possuía sete tentáculos relacionados aos sete pares
de pernas-espinhos. Ao final de um dos lados o tronco se afunilava, dando origem
a algo que se supõe ser uma abertura digestiva... Os tentáculos possuíam suas
pontas em formato de pinças, o que pode indicar que serviam para capturar
detritos suspensos nas aguas lodosas que habitava. Em resumo, o animal é tão
esquisito que não se pode descartar a hipótese de que ele era, na verdade, “parte”
de um animal maior... Equívocos taxonômicos semelhantes acontecem nos estudos
paleontológicos, o que corrobora a dificuldade que enfrentam os paleontólogos
ao se defrontarem com animais do período câmbrico. Também foi extinto na Mortandade Silúrica-Ordovícica.
Abaixo, representações do Hallucigenia.
Abaixo, representações do Hallucigenia.
Aysheaia: animal de corpo cilíndrico que possuía dez pares de
membros com os quais de fixava na casca de esponjas e pepinos do mar. Sua boca possuía
um conjunto de "brocas perfuratrizes" por onde se pregava e sugava a seiva das suas plantas e organismos prediletos. Isto o caracteriza como um parasita. Era cego. Não foi
extinto na Grande Dizimação do final do Câmbrico, o que significa que dele
derivaram alguns dos espécimes funcional e anatomicamente semelhantes da
atualidade.
Abaixo, representação computadoriza de um exemplar do Aysheaia.
Abaixo, representação computadoriza de um exemplar do Aysheaia.
Banffia: só recentemente esta espécie foi reexaminada e
classificada pelos paleontólogos. Até então seus fósseis, também advindos do
Xisto Argiloso de Burgess, na Columbia Britânica Canadense, estavam engavetados
no laboratório de Walcott, no Smithsonian Institution de Washington, DC,
Estados Unidos. Possuía corpo mole e espiralado, o que lhe permitia nadar de
forma desengonçada. Sua extremidade cefálica estava encoberta por uma carapaça
mineralizada, de onde surgia a abertura de uma boca semi-circular cercada por apêndices
sensoriais em forma de antenas que se estendiam por baixo do corpo do animal. Não se conhecem olhos nesta estranha espécie.
Abaixo, duas Banffias "vistas" por cima.
Abaixo, duas Banffias "vistas" por cima.
Wiwaxia: pequena criatura oval, achatada e cega, com o
corpo inteiramente recoberto por placas escamosas, semelhantes a unhas, talvez
do mesmo material. Espinhos dorsais eram direcionados para cima, levemente curvados
para trás. Sua superfície ventral era pelada, sem escamas, e à frente do animal
se encontrava o orifício bucal, na verdade um par de mandíbulas com dentes em
forma de ponta de flecha, muito afiados. A julgar pela anatomia, era um
necrófago detritívoro, que recolhia restos orgânicos do fundo das poças, lagos
e mares por onde se arrastava. Suas sete fiadas de espinhos dorsais serviam de
defesa contra predadores; os espinhos eram tão afiados e resistentes que se
conservaram nos fósseis até os dias atuais. Taxonomicamente inclassificável, não
está relacionado a nenhum filo-genealógico conhecido; nem do presente, nem do
passado. Extinto na “Dizimação Silúrica”. Uma singularidade animal.
Abaixo, representação computadorizada e desenho de uma Wiwaxia.
Abaixo, representação computadorizada e desenho de uma Wiwaxia.
Anomalocaris: maior animal do Câmbrico, talvez o maior
predador também. O nome significa “camarão anômalo”, e foi cunhado em um período
pré-Burgess, já que partes do animal haviam sido descobertas em meados do
século XIX. Foi remontado como um quebra-cabeça, por partes, até que finalmente
fósseis completos foram encontrados nas camadas fósseis de Burgess. Possuía
quase 1 metro de comprimento na fase adulta, com dois enormes apêndices em forma de garras
dentadas preênseis que saiam da superfície inferior da carapaça cefálica. Possuía
um par de grandes olhos sobre pedúnculos, e nadava impulsionado por possantes barbatanas
ventrais lateralizadas guiado por "lemes" traseiros. Sua boca circular era repleta de dentes afiados que
seguiam para o interior do tubo digestivo, triturando suas presas em pequenos
fragmentos digeríveis. Nadava, acredita-se, de modo semelhante as nossas raias, ou arraias,
ondulando as barbatanas laterais. Seu escudo cefálico era resistente como uma
rocha. Espécie dizimada no final do período câmbrico durante a Grande Extinção Silúrica.
Abaixo, duas representações do Anomalocaris.
Abaixo, duas representações do Anomalocaris.
Das
espécies citadas acima, apenas o Aysheaia sobreviveu à Grande Extinção
Silúrica. E o intrigante é que este animal parasita pouco tinha de excepcional,
com exceção do fato de ser um parasito vivendo às custas de hospedeiros situados no estrato primário da cadeia
alimentar. Como se alimentava da seiva de vegetais aquáticos de lagunas rasas e da linfa de animais, foi poupado da
dizimação que exterminou quase toda a cadeia alimentar acima dele. Sua situação
“modesta” na ecologia do mundo câmbrico lhe poupou da extinção. Quem apostaria “nele”??
Aysheaia, El Vencedor!
O “acaso” também poupou algumas outras poucas espécies, das quais nossa moderna fauna, inclusive o Homo Sapiens, descende.
Pikaia Gracilens, outra campeã!!
Este elegante animal acima é o "Pikaia Gracilens", e foi batizado por Charles D. Walcott em homenagem ao monte onde seu fóssil foi primeiramente encontrado, o Monte Pika, também nas Montanhas Rochosas Canadenses. O interessante sobre este animal simples?! Ele também sobreviveu à Grande Dizimação Câmbrica-Silúrica. Há duas décadas descobriu-se que este animal é o primeiro "cordado" registrado na fauna terrestre. Os cordados são um filo animal que apresentam a notocorda espinhal, um tubo nervoso dorsal e fendas branquiais, o que significa que ele é o ancestral de "todos" os peixes, anfíbios, répteis, aves e, posteriormente, mamíferos. Se este pequenino nadador do câmbrico não tivesse sobrevivido à Grande Extinção Silúrica, nada do que se conhece hoje sobre este planeta e sua biosfera poderia ser descrito, observado ou analisado por seres terrestres. Não haveria auto-consciência. O Homo Sapiens simplesmente não existiria caso o Pikaia não houvesse sobrevivido e evoluído em direção aos vertebrados...
Qual destino aguarda nossa soberba espécie? Somos os causadores de uma nova onda de dizimação? Já demos ignição ao processo que nos devorará, já que estamos no topo da cadeia alimentar? Nossas tão indulgentemente aclamadas qualidades intelectuais nos salvarão do extermínio? Quem viver verá...! Rsrsrsrsr...
Dúdis Tozinsky Cobain.
Bibliografia:
Darwin, C. A Origem das Espécies.
Martin Claret, São Paulo: 2004.
Dawkins, R. O Gene egoísta. Editora
Itatiaia, Belo Horizonte: 2001.
Dawkins, R. O Relojoeiro Cego. Cia.
das Letras, São Paulo: 2009.
Dawkins, R. A Grande História da
Evolução. Cia. Das Letras, São Paulo: 2009.
Dicionário de Ciências: Biologia e
Geologia. Porto Editora, Portugal:2001.
Gould, S, J. A Vida é Bela. Gradiva.
Portugal: 1995.
Gould, S, J. Viva o Brontossauro.
Cia. das Letras. São Paulo: 1992.
Leakey, R. A Origem da Espécie
Humana. Rocco, Rio de Janeiro: 1997.
Luca Cavalli-Sforza. Genes, Povos e
Línguas. Cia. Das Letras, São Paulo: 2003.
Montagu, A. Homo Sapiens. Guadiana
Publicaciones, Madri: 1970.
Morris, D. O Macaco Nu. Editora
Record, Rio de Janeiro: 1967.
Dawkins, R. A Grande História da Evolução. Cia. Das Letras, São Paulo: 2009.
[3] Os
depositívoros extraem pequenas partículas alimentares do sedimento acumulado no
solo subaquático.
[1]
Micróbios calcificados.
[2] Rochas
sedimentares ou metamórficas formadas e compostas por camadas de sedimentos, em
geral marinhos.
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