A semana passada foi marcada por um evento de proporções mundiais: o casamento real entre o Príncipe William e a Princesa Kate, da Inglaterra.A família real britânica mantém-se assim coesa e unida em torno da tradição e da certeza de uma descendência que perpetuará a linhagem real.
Mas a grande vedete do casamento não é a cerimônia em si, tão pouco o que ela representa, como rito legitimador das relações sexuais entre marido e mulher e garantidor da validade eclesiástica da união sagrada do matrimônio.
O grande símbolo que tangencia sutilmente todas as rebuscadas e pomposas circunstâncias daquela cerimônia de 12 milhões de libras não é nenhuma pessoa, nenhum cônjuge, nenhum padre anglicano ou chefe de Estado ou de Governo, mas sim o vestido de noiva usado pela Princesa Kate.
O tal vestido é mais que um mero vestido. Trata-se de um símbolo de importância ímpar na vida das mulheres. Há quem diga que elas gostariam de repetir seu casamento todos os anos apenas para usar novamente seus vestidos de noiva.Mas, afinal, o que ele representa? Por que é tão importante o vestido de noiva para o universo feminino?
Michel Foucault em seu História da Sexualidade: a vontade de saber, vol. 1, fala sobre dois paradigmas sexuais do gênero humano: a virilidade e força, dadas ao gênero masculino, e a pureza e virtude, guardadas pelo gênero feminino.
Tudo o que os homens buscam no sexo oposto é nada mais do que esta pureza transmutada em um sem número de variações recatadas que a mulher deve aprender desde muito jovem, para só então adentrar ao universo mirabolante da sedução.
O vestido de noiva é a peça que faltava, dada como prêmio à mulher que honrou suas obrigações femininas e guardou a integridade de seu corpo para a tão sonhada e esperada entrega nupcial.
Nesse sentido, o vestido de noiva é elemento certificador da pureza feminina, daí o uso esmagadoramente preferido da cor branca, símbolo natural de tudo aquilo que é elevado, puro e espiritual.
Contudo, dizer que o vestido denota tão somente essa perspectiva sexual é muito pouco para tentar explicar o tão complexo sistema de pensamento do universo feminino.
Não poucas vezes, fui surpreendido quando algumas garotas me disseram que o real motivo delas se maquiarem, mudar o corte de cabelo ou lançarem-se dentro das apertadas medidas de vestidos e calças sensuais não era propriamente para atrair a atenção dos homens, mas sim das próprias mulheres. Isso se dá, segundo elas mesmas, pelo fato de os homens não darem a menor importância para o novo corte de cabelo ou para a roupa diferente. O universo masculino se prende a outros atributos, mais diretos e racionais, sem tantos devaneios como aqueles pretendidos pelas mulheres.
Daí, então, as mulheres desejarem se mostrar não para os homens, mas para elas mesmas. Trata-se aí da mais alta expressão caracterizadora da vaidade feminina, tão intrínseca aos seus olhares multifocais.
Lançando mão dessa circunstância expressa pelas próprias mulheres é que digo ser o vestido de noiva também um símbolo servindo ao propósito de aviso da noiva para as demais representantes do sexo feminino ali presentes.
Naquele momento suntuoso do casamento, a noiva e seu vestido formam um par mais importante que os cônjuges tomados propriamente. Naquele momento, a simbiose entre mulher e vestido remete todas as demais mulheres ali presentes a um degrau mais abaixo da noiva. É o momento máximo do desejo narcísico feminino, por onde a mulher acredita ter chegado ao ápice de sua beleza, devendo ser coroada pelos olhares invejosos e vaidosos das demais.
O vestido não teria razão de ser se não pudesse ser visto pelos demais, daí a razão da noiva caminhar pelas naves da igreja até chegar ao noivo que a espera no altar.
Neste trajeto guiado à força do combustível da vaidade, todos os olhares se voltam para aquela que deveria ser a mais bela e elegante, a única, superior e cândida noiva, alvo dos comentários e da inveja das demais.
Os homens, como se é de esperar costumam desprezar o vestido propriamente dito, remetendo seus olhares de forma direta e sem devaneios a um possível decote ou às curvas femininas em evidência.
Mas as mulheres criam em suas psiquês inúmeras variantes de desejo. Desde a vontade explícita de diminuírem a beleza da noiva por mera inveja e ressentimento até a declarada vontade de tomar o seu lugar até iludirem-se, percorrendo o caminho nupcial como se noiva fossem até atingirem o tão sonhado e aclamado lugar do coroamento por sua beleza legitimamente reconhecida. Assim, o casamento real fez tanto sucesso porque denota o sonho de grande parte das mulheres. É a simbologia perfeita, porque estão diante daquela que se tornou princesa. O vestido da noiva serve, neste casamento em especial, ao propósito de coroá-la para toda a eternidade como princesa e não apenas por uma noite.
Dessa forma, os olhares femininos pelo mundo todo se voltaram para a Inglaterra nesta semana, buscando medir cada palmo e cada costura daquele vestido de noiva tão especial, como se medissem na verdade a intensidade com que viveriam aquele momento no lugar da Princesa Kate, pois cada uma sabe o quanto seria melhor princesa do que ela.
Rafael Guerreiro