Uma noite dessas estive conversando com o amigo Saimov sobre os 'alemães'.
Os Alemães são mesmo um povo estranho; ao menos para mim! Todo um verniz de civilização, asseio e requinte cultural de fachada que constituem o “ponto alto” do caráter nacional alemão e encobrem, aos olhares desavisados, o lado negativo ou o “ponto baixo” que toda personalidade, identidade e nacionalidade possuem, segundo afirma o mais destacado investigador da psique humana, Sigmund Freud, cientista austríaco falante do idioma alemão.
Este mesmo ‘asseado’ povo, como se sabe, nada tem de imaculado. Aliás, como todo o ser humano, todas as sociedades possuem seu lado obscuro. Mas os alemães, em particular, foram os responsáveis diretos pela maior ‘assepsia’ étnica da história, o genocídio de seis milhões e meio de indivíduos do povo judeu.Os Alemães sozinhos foram os causadores, apenas no século vinte, de uma mortandade provavelmente maior que as façanhas somadas de Alexandre Magno, Aníbal, Átila, Calígula, Genghis Kahn, Julio César e Napoleão juntos. E pense que a ação mortífera conjunta destes figurões levou séculos para se consumar!
Os alemães, um magnífico e ordeiro povo, só não escravizaram todo o resto da “degradada” espécie humana porque foram detidos à tempo e derrotados por uma coalizão composta pelos países mais poderosos do mundo (depois da Alemanha, é claro), numa guerra tão horripilante que sombreou para sempre, em virtude dos rios de sangue que esvaíram da juventude, a fé no progresso da civilização e na racionalidade humana. Imaginem o que seria do mundo hoje tivessem os eficientes e organizados germânicos vencido a Segunda Guerra Mundial! Catástrofelogia premonitória comparativa, um interessante exercício mental! O perdão é divino! Sabemos. Concordamos e o praticamo-lo na medida em que nossa natureza humana nos permite. Mas não podemos mais recair na ingênua apreciação acrítica das ‘aparências’. Se existe no mundo uma ‘consciência nacional pesada’, essa consciência deve ser a consciência alemã. As atrocidades e perversidades cometidas pelo regime nazista não teriam ocorrido sem a conivência do povo alemão.
-“Mas foi outra geração!”, dizem! Isto também é correto! Mas por que, pergunta-se, temos de continuar pagando tributos laudatórios em forma de elogios, encômios e apologias aos povos do capitalismo central, entre eles os alemães? Povos que com toda a sua riqueza, produtividade, eficiência, avanço tecnológico e social, não aprenderam ainda a viver da forma alegre e descontraída dos brasileiros... Eles é que aprendam conosco! As únicas guerras justificáveis são as guerras defensivas, e os alemães não se envolveram neste tipo de guerra, mas na guerra ofensiva, na guerra de conquista e na guerra de extermínio. Deste ponto de vista, eles não têm nem mesmo o álibi das conjunturas geopolíticas desfavoráveis para escusá-los. Culpa, ressentimento, frustração, vícios, complexos, neuroses e manias estão no “ponto baixo” dos elementos constituintes do caráter nacional alemão, assim como no caráter dos indivíduos, em maior ou menor grau. Não os invejemos! Vivamos a plenitude de nossa tropicalidade, de nossa liberdade e de nossa adolescência civilizacional, e deixemos os Alemães com suas próprias chagas. Preocupemo-nos com nossas próprias feridas, desigualdades, violências e pobrezas, que já se tornaram crônicas e seculares, mas não incuráveis!
O mundo germânico nos deu Einstein, Freud, Heidegger, Marx, Thomas Mann, Husserl, Max Weber, Goethe, Wittgenstein, Horkheimer, Jurgen Habermas, Kant, Schopenhauer, Erich Fromm, Hannah Arendt, Walter Benjamin, Theodor Adorno e outros. Todos pensadores austríacos e alemães admiráveis. Nas artes e na música, também é inegável o talento, gênio e a contribuição dos germânicos à humanidade. Estão aí para provar as obras de Schutz, Telemann, Beethoven, Mozart, Brahms, Haydn, Haendel, Schubert, Schumann, Mendelssohn, Gustav Mahler, Hans Henze, Stockhausen, Richard Wagner, Anton Bruckner, Anton Von Webern, Alban Berg, Arnol Schoenberg, Paul Hindemith e Bach, o eterno, além de outros nos enchem de encanto musical. Mas infelizmente também brotou daquela terra Adolf Hitler, Goebbels, Himmler, Hermann Göring, Josef Mengele, Adolf Eichmann e Ilse Koch, a “cadela de Buchenwald”.