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segunda-feira, 25 de julho de 2011

RETALHOS DO ACASO

Quais segredos guarda uma paixão de três dias? Talvez nenhum, mas talvez exista nesta singularidade volátil a possibilidade de um engano feliz, de um prazer único, sem medições temporais.
Quanta filosofia pode ser pensada na fumaça de um cigarro! E no microcosmos moral de cada verdade errante que perambula por este universo indiferente, lanço minha descrença sobre qualquer idealismo.

sábado, 14 de maio de 2011

Reflexões sobre “La muerte”.

Nascemos, e após uma fase de gradativo, crescente e contínuo despertar da consciência para o mundo externo e para a vida, ocorre acidentalmente, por má formação congênita ou por distúrbios fisiológicos críticos, freqüentemente bem antes do esperado 'estatísticamente’, um súbito, brusco e definitivo retorno à condição inconsciente de ser. Desta vez, não uma inconsciência parcial e temporária, como no sono, no desmaio ou no coma, mas uma profunda, irreversível e permanente inconsciência em relação a tudo o que foi contemplado até então. É quase inconcebível tamanho desaproveito por parte da natureza, sempre tão econômica, harmoniosa e cheia de recursos. Compreensível é que o tema seja tabu, que seja polêmico e que gere tanta especulação, afinal, é natural que aqueles que estão cônscios, lúcidos e ativos neguem, evitem e protelem esta circunstância indesejada por quase todos, até que não haja mais nada a ser feito para impedi-la. Pois o que esta em jogo é nada mais que a individualidade, a senciência, a essência de cada um. O universo pessoal de informações, saberes, segredos, conjecturas, noções, verdades, dons, habilidades, interpretações, imagens, sínteses e sonhos...
Chega mesmo a ser irônico o fato de que o processo da vida consista em uma sequência de fases que culmine nesta última, a fase de extinção do ser pensante; às vezes, com acelerada queima de etapas. Mas o que parece certo é que de todos os dados e informações contidas nas redes neurais do indivíduo 'deceased', apenas uma parte ínfima tenha importância e valor social. A quase totalidade do conhecimento acumulado sobre a vida, na vida que se esvai durante a decomposição da matéria que constituía o ser, tinha valor e uso somente para o próprio ser que iniciou seu processo de deterioração material. Entretanto, a natureza é sábia: nas circunstâncias que se avizinham, este individuo não precisará mais fazer uso de nenhum desses dados, nenhum. E os vivos; os vivos não podem depender dos mortos...
Portanto, a morte fecha um ciclo justo, natural, ainda que seja francamente lamentável em certos casos. E quase não há desperdício, apesar da exuberância da vida se manifestando na suntuosa ostentação de seres altamente complexos, desenvolvidos e cultivados, que hoje se encontram no auge de sua atividade física e mental, e amanhã, na mais absoluta inutilidade; exceção seja feita aos doadores de órgãos, aos que 'doam' seus corpos como exemplares para estudo da medicina, e aos cadáveres mumificados ou fossilizados, que servem a ciência hoje e que abastecerão o equivalente da ciência de daqui a 20.000 anos...
Na vida, temos consciência de nosso inconsciente; na morte, estaremos inconscientes de nossa pretérita consciência... Trilhai o caminho da humildade, e não acampei nas clareiras da arrogância. Avia-te para os idos de março...

terça-feira, 10 de maio de 2011

O nonsense do sentido.

Assim não disse Zaratustra? Para quem a vida perdeu o sentido, qual o sentido de se perguntar o sentido? Esta é uma questão válida? O que é mito e o que é realidade no superpovoado e complexíssimo mundo da civilização ocidental? As pessoas fazem filhos para encaixá-los em nomes pré-escolhidos. A fé religiosa se mostrou vã e falsa, não fazendo dos homens seres melhores, exceto em casos muito, muito isolados. A família, para o bem ou para o mal, se desmorona como instituição, seu agregado se desmembra. Os casamentos são comédias públicas mal encenadas e fingimento íntimo mal disfarçado. Se não há como provarmos a realidade, o que dizer da crença na irrealidade fantástica da religião?
-"Herdeiros do século XXI cristão! Bípedes e quadrúpedes! Tomai conta do que não vos pertence!" Gritou o anti-profeta!
-"Os ' homens' não tem preparo psicológico para suportar uma injeção na nádega", que dizer do dia em que as coisas do mundo enegrecerem de vez?
-"O Universo, ouvintes, é uma só e mesma coisa. A separação efetuada arbitrariamente entre coisas e fenômenos é ingênua! Até mesmo a divisão entre 'vivo' e 'não-vivo' é questionável!"
-“Vossa espécie mal acabou de sair das savanas e florestas dos caçadores-coletores e já acredita ter o domínio do mundo físico, químico, bacteriológico, atômico... Vossos instintos e aptidões naturais gritam tão alto pela rude e complexa estrutura de vossas sociedades que ameaçam desconstruir tudo o que construíram”
- "Talvez não sejamos em nada melhores que ou diferentes dos animais. Eles são corajosos perante os mais fracos, e covardes diante dos mais fortes. Apenas criou-se um discurso cheio de eufemismos e justificativas vãs para contradizer esta obviedade. No fundo, a lei do mais forte prepondera"
- “Vossos egos crescem ou diminuem conforme o tamanho e imponência da estrutura que vos abriga, dos ‘títulos’ que carregam e do número em que vos encontram”
- “Buscai o entendimento profundo das belezas e curiosidades da existência, pois logo que se forem, caireis no esquecimento irrecuperável, no repouso absoluto, na inércia perpétua”
_ “Não jogueis fora vossas idéias estapafúrdias, nem vossas idéias plagiadas, nem as inúteis, nem as repetidas, nem as confusas, nem as caducas, nem as superadas, nem as sujas, nem vossas idéias inconsistentes, nem as frágeis, nem as utópicas, nem as francamente idiotas, nem as egoístas, nem as distorcidas pois, neste caso, nenhuma idéia restará para que identifiqueis os detritos restantes”
- "Pareis de pensar como 'homens' e passeis a pensar como seres cósmicos, como entidades pertencentes à uma localidade muito mais vasta que vosso berço terráqueo"
- "Não vos extasiem com vossas ‘vitórias’, nem vos deprimam com vossas ‘derrotas’ pois, toda vitória comporta silenciosas derrotas, assim como as derrotas comportam diversas e insuspeitas vitórias...”

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Pensem nos alemães...


               Uma noite dessas estive conversando com o amigo Saimov sobre os 'alemães'
           Os Alemães são mesmo um povo estranho; ao menos para mim! Todo um verniz de civilização, asseio e requinte cultural de fachada que constituem o “ponto alto” do caráter nacional alemão e encobrem, aos olhares desavisados, o lado negativo ou o “ponto baixo” que toda personalidade, identidade e nacionalidade possuem, segundo afirma o mais destacado investigador da psique humana, Sigmund Freud, cientista austríaco falante do idioma alemão.
              Este mesmo ‘asseado’ povo, como se sabe, nada tem de imaculado. Aliás, como todo o ser humano, todas as sociedades  possuem seu lado obscuro. Mas os alemães, em particular, foram os responsáveis diretos pela maior ‘assepsia’  étnica da história, o genocídio de seis milhões e meio de indivíduos do povo judeu.Os Alemães sozinhos foram os causadores, apenas no século vinte, de uma mortandade provavelmente maior  que as façanhas somadas de Alexandre Magno, Aníbal, Átila, Calígula, Genghis Kahn,  Julio César e Napoleão juntos. E pense que a ação mortífera  conjunta destes figurões levou séculos para se consumar!
              Os alemães, um magnífico e ordeiro povo, só não escravizaram todo o resto da “degradada” espécie humana porque foram detidos à tempo e derrotados por uma coalizão composta pelos países mais poderosos do mundo (depois da Alemanha, é claro), numa guerra tão  horripilante que  sombreou para sempre, em virtude dos rios de sangue que esvaíram da juventude, a fé no progresso  da civilização e na racionalidade humana. Imaginem o que seria do mundo hoje tivessem os eficientes e organizados germânicos  vencido a Segunda Guerra Mundial! Catástrofelogia premonitória comparativa, um interessante exercício mental! O perdão é divino! Sabemos. Concordamos e o praticamo-lo na medida em que nossa natureza humana nos  permite. Mas não podemos mais recair na ingênua apreciação acrítica das ‘aparências’. Se existe no mundo uma ‘consciência nacional pesada’, essa consciência deve ser  a consciência alemã. As atrocidades e perversidades cometidas pelo regime nazista não teriam ocorrido sem a conivência do povo alemão.
                 -“Mas foi outra geração!”, dizem! Isto também é correto! Mas por que, pergunta-se, temos de continuar pagando tributos laudatórios em forma de elogios, encômios e apologias aos povos do capitalismo central, entre eles os alemães? Povos que com toda a sua riqueza, produtividade, eficiência, avanço tecnológico e social, não aprenderam  ainda a viver da forma alegre e descontraída  dos brasileiros... Eles é que aprendam conosco! As únicas guerras justificáveis são as guerras defensivas, e os alemães não se envolveram neste tipo de guerra, mas na guerra ofensiva, na guerra de conquista e na guerra de extermínio. Deste ponto de vista, eles não têm nem mesmo o álibi das conjunturas geopolíticas desfavoráveis para escusá-los. Culpa, ressentimento, frustração, vícios, complexos, neuroses  e manias estão no “ponto baixo” dos elementos constituintes do caráter nacional alemão, assim como no caráter dos indivíduos, em maior ou menor grau.  Não os invejemos!  Vivamos a plenitude de nossa tropicalidade, de nossa liberdade e de nossa adolescência civilizacional, e deixemos os Alemães com suas próprias chagas. Preocupemo-nos com nossas próprias feridas, desigualdades, violências e pobrezas, que já se tornaram crônicas e seculares, mas não incuráveis! 
   O mundo germânico nos deu Einstein, Freud, Heidegger, Marx, Thomas Mann, Husserl, Max Weber, Goethe, Wittgenstein, Horkheimer, Jurgen Habermas, Kant, Schopenhauer, Erich Fromm, Hannah Arendt, Walter Benjamin, Theodor Adorno e outros. Todos pensadores austríacos e alemães admiráveis. Nas artes e na música, também é inegável o talento, gênio e a contribuição dos germânicos à humanidade. Estão aí para provar as obras de Schutz, Telemann, Beethoven, Mozart, Brahms, Haydn, Haendel, Schubert, Schumann, Mendelssohn, Gustav Mahler, Hans Henze, Stockhausen, Richard Wagner, Anton Bruckner, Anton Von Webern, Alban Berg, Arnol Schoenberg, Paul Hindemith  e Bach, o eterno, além de outros nos enchem de encanto musical. Mas infelizmente também brotou daquela terra Adolf Hitler, Goebbels, Himmler, Hermann Göring, Josef  Mengele,  Adolf Eichmann e Ilse Koch, a “cadela de Buchenwald”.