segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Extremo trágico.



Um ser humano pode estar feliz mesmo enquanto aguarda a eletrocussão, via cadeira elétrica, no corredor da morte. Já outro, infeliz, acumula coragem para suicidar-se em um big hotel de Hollywood.



O que parece predispor cada um destes estados de consciência é a presença ou ausência de “paz de espírito” obtida ou não enquanto se alimenta a esperança ou a desesperança dentro de si. Desesperar-se mesmo tendo uma enorme gama de recursos à disposição, e não entrar em desespero mesmo quando o último recurso ao governador do Estado foi negado, depende, portanto, de um equilíbrio ou desequilíbrio interno. Dois extremos que se chocam vindos de direções diferentes: ânsia de viver, desejo de morrer. Ter ainda algo mais para falar, e nada mais ter a dizer. Históricos individuais que se julgam, condenam e sentenciam. Dramas pessoais que, conduzidos por trilhas diferentes ou mesmo antagônicas, deságuam na mesma foz, a morte. Uma trilha segue o caminho da carestia e da fome, que leva ao latrocínio, prisão, condenação e execução; outra passa pela abundância, fastio e saturação, e leva à desilusão, à depressão e ao auto-extermínio. Um dos indivíduos foi privado de tudo pela sociedade, inclusive e finalmente da vida, mas ainda assim encontrou as respostas que buscava, ou soube fazer as perguntas certas no momento critico. O outro usufruiu e consumiu de tudo, inclusive a própria vida. A fartura o levou a lassidão de espírito, e esta não lhe permitiu encontrar uma estratégia melhor para lidar com seus problemas e frustrações que a auto-eliminação.



Necessidades materiais e necessidades imateriais. Um deles obteve muito das primeiras; o outro apenas o essencial da segunda, tardiamente. Tardia também foi a conversão do ladrão crucificado com o Cristo. Mas esta conversão lhe garantiu a “paz de espírito” necessária para enfrentar a morte que chegava. O terceiro crucificado morreu rebelado, em amargura e tormento. Padrões recorrentes.



Instigados ao consumo dos mais supérfluos bens por políticos demagogos (que prometem satisfazer estas demandas inventadas), e publicitários hipócritas (que visam apenas aumentar seus ganhos oferecendo ao consumidor os mais diversos ‘venenos’ e ‘bugigangas’), os indivíduos acreditam estarem em “desvantagem” ou em condições “injustas” por não poderem arcar com a aquisição destes produtos, que não são indispensáveis do ponto de vista das necessidades vitais. Uma vez de posse dos extravagantes fetiches sociais, o indivíduo transforma seu ‘uso’ e ‘posse’ em uma “segunda natureza”, em hábitos por vezes nocivos e dispendiosos, sem mais se dar conta de que os busca por curiosidade, vício, inveja e ciúmes.



Alimentação, vestuário, moradia, saúde, segurança e lazer são necessidades primárias. Mas a desnaturação desta última, o lazer transformado em entretenimento, tem feito dos indivíduos meros fantoches e marionetes nas mãos dos produtores de ilusões, fantasias e hábitos. As tradicionais danças folclóricas e festas populares que celebravam o solstício ou as colheitas, o casamento ou o nascimento, a vitória ou a morte, tornaram-se, nas mãos dos publicitários, o “Carnaval”, “a Festa do Peão”, o “Circo da Fórmula 1”, o “Big Brother”, a “Oktoberfest”, as “Olimpíadas”, a “Copa do Mundo”, a “Festa Junina”, o “Natal”, a “Páscoa”, o “Réveillon”, o “Dia das Mães”, “dos Pais”, “dos Namorados”, “das Crianças”, “da Consciência Negra”, “do Índio”, o “Mardi Gras”, etc.




A saturação, assim como a carestia extrema, podem predispor o individuo ao auto-extermínio. O suicídio é como uma arapuca armada pela própria pessoa. É uma idéia alimentada com regularidade, dia após dia, hora após hora. Uma vez aceita como “solução final” ou “estratégia definitiva”, é muito difícil elaborar qualquer argumento externo que modifique a convicção interior do individuo obcecado por esta triste idéia. O sociólogo Durkheim (Suicide, 1897) sugeriu diversas causas sociais para este fenômeno, e classificou-o em três tipos: A) o suicídio altruísta, que o individuo presta à seu grupo ou comunidade. Anciões que não querem se tornar um peso aos demais. Pessoas que detém segredos que comprometem a muitos de seus aliados e que devem “morrer” com ele. B) o suicídio egoísta diz respeito a uma inadaptação ou incapacidade de lidar com situações de pressão que incidem sobre a psique do individuo. Segundo Durkheim, as taxas de suicídio se elevaram muito após o advento da Revolução Industrial com seus desdobramentos e conseqüências. C) o suicídio anômico: são suicídios decorrentes de caos social, revoluções, desordem generalizada, guerra civil, depressões econômicas, catástrofes naturais, epidemias, etc.


Já alguns psicólogos como o americano Jack D. Douglas (The social meanings of suicide, 1967) e o francês Jean Baechler(Les suicides, 1975), creditam o ato do suicídio a motivações inerentemente pessoais, ou seja, à biografia do suicida. O suicídio seria sempre uma resposta do individuo a crises “internas”, já que as “externas” não determinam o auto-extermínio de todos que a suportam. Segundo estes autores, o suicida se fecha em uma armadilha psicológica estratégica, que para ele é como um consolo, a válvula de escape última, o retorno ao útero protetor da inconsciência. Quando as condições se tornarem para ele insuportáveis, eis sua forma de fuga.




Segundo o escritor francês Albert Camus: “não há mais do que um problema filosófico verdadeiramente sério: o do suicídio. Julgar se a vida vale ou não ser vivida é responder à questão primordial da filosofia”(Le mythe de Sisyphe, 1954). Já seu contemporâneo e ex-colega Jean Paul Sartre expressou-se assim diante do dilema: “Se estou mobilizado em uma guerra, esta guerra é minha guerra: ela é à minha imagem e eu a mereço. Mereço-a antes de tudo porque podia tê-la esquivado com o suicídio ou com a deserção: estas possibilidades extremas devem sempre estar presentes para nós quando temos de encara-las em uma dada situação”(L’être et néant, 1943).

Em geral, os filósofos de origem religiosa condenam o ato suicida por diversas razãos, dentre as quais: é contrario à vontade Divina, assim em Platão, "Fedro", cap. 62, e em Santo Agostinho, "Cidade de Deus", cap. I, p, 20; é contrário ao destino em Plotino, "Enéadas", cap, I, p, 9; é contrário à lei natural em São Thomás de Aquino, "Summa Theologiae", cap. II, 2, p, 64-65.

Outros filósofos de formação mais secular são mais simpáticos ao fenômeno. David Hume chega a dizer que, como nada escapa à vontade divina, o mesmo ocorre com o suicídio( Essays, of Suicide, 1741-2). Para Kant, trata-se da transgressão de um dever, pois como ele mesmo o diz: “o homem é obrigado à conservação da vida somente porque é pessoa”(Met. Der Sitten, II, parte I, artigo 6). Para Schopenhauer: “ o suicídio não é em absoluto a negação da vontade, mas um ato de forte afirmação da mesma vontade, pois o suicida quer a vida e só não esta contente com as condições que tem”( O Mundo como Vontade e Representação, I artigo 69, 1819). Para Fichte, era ao mesmo tempo um ato de covardia quanto de coragem. Ele argumentava: “ em relação ao homem virtuoso, o suicida é um covarde; em relação ao miserável que se submete à desonra e à escravidão para prolongar por alguns anos o sentido mesquinho da própria existência, é um herói”(Sittenlehren, 1789, p, 268). Walter Benjamim, filósofo judeu/alemão disse: "A personalidade destrutiva vive a sentir, não que a vida é digna de ser vivida, mas que o suicídio não vale o incômodo"(O caráter destrutivo, 1931).

Para Aristóteles o suicídio é injusto para com a comunidade à qual o suicida pertence( Ética à Nicômaco, V, 11, 1138
-9).



Certos filósofos consideraram lícito ou mesmo necessário o suicídio. Assim achavam os estóicos, entre eles Cícero. Disse ele: “ Quem possui em maior número as coisas segundo a natureza, tem o dever de permanecer em vida; quem , ao contrário possui ou crê-se destinado a possuir em maior número as coisas contrarias tem o dever de sair da vida. Disso resulta claramente que o sábio tem às vezes o dever de sair da vida apesar de ser feliz e o tolo de permanecer na vida apesar de ser infeliz”(De Finibus, III, 18-60).

Epicuro e Sêneca também não desaprovavam o ato. O primeiro dizia: “ É desventura viver na necessidade, mas viver na necessidade não é em absoluto necessário”. E o segundo: “Agradecemos à Deus que ninguém pode ser segurado na vida contra a própria vontade: é possível esmagar a própria necessidade”(Epistulae Morales ad Lucilium, cap. XII.64DC).

Alguns literatos também opinaram lúgubre e espirituosamente a respeito do suicídio. Por exemplo, George Borrow(1803-1881), novelista e viajante inglês disse certa vez: "Se eu tiver de cometer suicídio, devo sempre encontrar meios de fazê-lo o mais decorosamente quanto possível; a decência, tanto na vida quanto na morte, nunca deve ser negligenciada" . Arthur Miller, dramaturgo norte-americano, dotou seu personagem "Quentin", da peça "After the Fall", de 1964, da seguinte fala:" Um suicídio mata duas pessoas, Maggie. Isto é o que ele faz" . O poeta, novelista e tradutor italiano Cesare Pavese escreveu certa vez a um jornal, em 1950: " Por grandes períodos você sente , profundamente dentro de si, a tentação de cometer suicídio. Você se entrega a isto rompendo suas defesas. Você era criança. A ideia de suicídio era um protesto contra a vida; morrendo, você escaparia deste ardente desejo pela morte" . Uma interessante colocação também se encontra no discurso do estadista e advogado norte-americano Daniel Webster durante sua argumentação, em 1830, sobre o assassinato do capitão americano White:" Não há refugio da confissão exceto o suicídio, e o suicídio é a confissão".

Por último, mas não menos importante para a discussão, temos os dizeres de Zaratustra, por Nietzsche: “Eu louvo a minha morte, a morte livre, que vem porque quero. E quando quererei? Quem tem uma meta e um herdeiro, quer a morte na hora certa, e para a sua meta e seu herdeiro”(Assim falou Zarathustra, I, Da livre morte, 1883-5). Tem-se também do mesmo pensador a seguinte frase:"O pensamento do suicídio é um poderoso consolo: por meio dele consegue-se atravessar muitas noites ruins" (Máximas e Interlúdios, pg 4 ).
Em vista dos exemplos da complexidade do tema, nada tenho a acrescentar que contribua para a discussão no momento. Posso apenas dizer que o sofrimento evitado por uns no morrer, se transfere imediatamente, nesta ocasião, para outros que permanecem no viver.
Dúdis Tozinsky Cobain.




domingo, 12 de fevereiro de 2012

HOMO SAPIENS

E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança (...). E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
Gênesis.



Despertou antes mesmo que os primeiros raios do sol lhe pousassem sobre a face. Na escuridão da caverna as pulgas o atormentavam, porém, não foi por isso que se levantou antes de todos do bando. Seu estomago doía, a sensação do ácido lacerando suas entranhas dizia que era hora. Não avisou ninguém, e mesmo que quisesse não o poderia fazer, pois o dom da fala ainda não lhe pertencia, apenas ao criador, sua imagem e semelhança. Não podia esperar.
Caminhou com desenvoltura pela planície, não porque o luar o favorecia, pois o astro que mais tarde seria motivos de tantas estrofes teimava em se esconder. O bando já vivia ali há um bom tempo, desde que a grande seca o havia levado para aquelas paragens. Conhecia cada pedra, cada galho fora do lugar...cada pormenor daquele arrabalde. Uma hora depois, por nossos modernos relógios ainda desconhecidos naqueles idos, sentiu certo desconforto. Sem o menor movimento de pescoço que indicasse qualquer preocupação em verificar a presença de um observador, e não sendo um voyer a procura de diversão, tão somente se agachou e colocou para fora o que lhe angustiava.
O sol já lhe queimava a rala pelagem e ele continuava caminhando. Pouco depois cerrou os olhos para perceber melhor o que estava em seu caminho. Sem que nenhuma música do Air Supply lhe viesse à mente...Lá estava ela. Com sua pelagem quase imperceptível, os lábios rubros e protuberantes, os mamilos róseos e quase nus, a genitália avermelhada como sangue fresco...Não foi amor a primeira vista, apenas impulso incontrolável. Sem flerte algum, sem rosas e nem vinho...Pegou-a pela cintura, de costas...No começo ela resistiu, debateu-se, mas logo que teve certeza da desproporção de forças e do impulso titânico que tomava sua carne, entregou-se satisfeita ao chamado da natureza. Alguns segundos depois...sua segunda necessidade estava satisfeita. Seguiu caminho.
A cada passo aumentada a dor que lhe rasgava o estômago e logo um barulho despertou sua atenção. Apertou o passo e seguiu na direção indicada aos ouvidos. A saliva inundou-lhe a boca quando viu o aquele animal cambaleando logo à sua frente. O perfume do sangue atiçava ainda mais a fome. Olhou a procura de algo que lhe servisse para a ocasião, mas só encontrou um grande pedaço de pedra. O animal, percebendo o perigo que lhe rondava, e mesmo naquela situação, ainda tentou fugir. O primeiro golpe não o matou, mas o grito agonizante não deixava dúvidas que seu fim estava próximo. O segundo golpe atingiu em cheio a fronte, fazendo com que o sangue esguichasse abundantemente.
Quando agachou para dilacerar a carne sentiu que não estava sozinho. A luta ia ser dura, pois o outro macho era bem mais robusto. Contudo, não sentiu medo. A coragem vinha de milhares de anos de evolução e de três dias e três noites sem alimento. Olhares se cruzaram, gestos, rituais, ameaças...Em alguns segundos os filhos de Deus debatiam-se no chão. O mais robusto conseguiu asfixiar o rival, julgando-o abatido. Levantou-se e foi recolher os despojos da batalha.
O movimento do sol, que ainda não havia matado Galileu, queimou a face do nosso herói, lembrando-o de que ainda estava vivo. Levantou-se vagarosamente, um pouco pela fraqueza e outro tanto por astúcia. Vendo o rival fartando-se sobre o animal morto, serenamente pegou uma rocha de tamanho médio e o golpeou na cabeça. Cambaleou, estremeceu, as babas de sangue saiam pela boca, os olhos pareciam cada vez mais inertes...Continuou golpeando, alucinadamente, até que a cabeça do rival se transformasse em uma massa disforme e arroseada pela mistura do sangue com a massa cerebral. Cansado, conseguiu ainda levar o alimento para debaixo de uma sombra. Saboreou com sofreguidão a carne misturada ao sangue da luta.
A terceira necessidade estava satisfeita. Encostou-se na sombra da árvore e adormeceu tranquilamente o sono dos justos.

Saymon
 
 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Sampa


Nasci no núcleo de uma cosmopolita hiper-aglomeração.
Concreto e metal, asfalto, vidro e tijolo, varanda, lixo e varal.
Cabos, fios e tubulações em quilométricas extensões. Prédios e presídios, manicômios e hospícios. Fábricas e indústrias. Imóveis cheios de lamento e desencanto, provas e expiações, lucros e produções, assédios e extorsões.
Arranjo urbano do caos humano, paisagem de geométricas edificações.






Nasci no olho de um furacão, nas entranhas de um monstro demográfico.
Modernidade sem limite e miséria sem termo, riqueza ostensiva e cultura intensiva.
Hospitais e escolas, catedrais, favelas e restaurantes. Moradas do saber, da arte e do sabor, da fé, da morte e da dor, do tráfico, dos Mutantes e do estupor.




Nasci no ponto zero de uma bandeirante civilização.
Fumaça e poeira, esgoto e vertigem, barulho, náusea e fuligem.
Aparelhos que rugem e hipnotizam, máquinas que gritam e robotizam. Oitocentos metros acima do oceano. Milhões de térmitas num corre-corre insano.
Uma pessoa por metro quadrado, mentes sufocando em franca descerebração.




Nasci no centro de uma colméia em agitada atividade.
Rainha das regras e das leis, da repressão e da tortura.
Princesa do crime e da extorsão, da propina e da usura.
A mafiosa do Terceiro Mundo. A defensora da clandestinidade.
A urbe da fartura e da fome, da liberdade e da censura.







Nasci no coração da teia surreal fiada por operários migrantes.
Na cidade dos corações transplantados, dos cemitérios assombrados; dos carcinomas confirmados, dos políticos processados.
Cidade dos estádios lotados e dos condomínios trancafiados.
Lugar de águas escuras e céu cinza. Terra de esperanças e ambições delirantes.







São Paulo, pai dos rostos pálidos e preocupados, frios e enrugados.
São Paulo granítico e implacável, gigante soberbo, tirânico e aloprado.
São Paulo, pai de todos os que querem ser seus filhos.
São Paulo, locomotiva veloz que ameaça sair dos trilhos.





quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Era da Mediocridade


A comunicação de massas, e outras mídias controladas por poderosos conglomerados, têm circunscrito o desenvolvimento intelectual de gerações inteiras dentro de estreitos parâmetros pré-determinados, que atendem aos interesses políticos e econômicos de pequenos grupos dominantes.

Esta afirmação é antiga, é anônima e implica que poderíamos estar vendo e vivenciando o mundo de forma mais bela e agradável do que vemos e vivenciamos hoje. Ela significa também que poderíamos compreender as pessoas e a mente humana de forma mais sensível e mais profunda do que o fazemos hoje. Que poderíamos entender melhor a complexidade da dinâmica social e resolver de modo mais simples e eficiente seus problemas. Que poderíamos ter uma linguagem mais adequada para discursar sobre as amplidões cósmicas e outra mais apta para lidar com as ínfimas estruturas quânticas que podem desatar muitos dos “nós” que atravancam a compreensão da realidade.

Que poderíamos ver melhor as distorções, as simetrias, os detalhes e as cores dos objetos ao nosso redor. E finalmente que poderíamos ser mais sábios, esclarecidos e felizes do que somos, não fosse à compactação pedagógica que nos achata, tornando-nos muito parecidos onde deveríamos nos diferenciar - dando expansão aos nossos dons, talentos e virtudes individuais especiais -, ao mesmo tempo em que nos diferencia justamente nos quesitos em que poderíamos nos sair melhor com maior grau de igualdade.

Poucos dentro da atual onda de baixa amplitude cognitiva que envolve a todos são capazes de perceber o próprio lugar que nela ocupam, dado a limitada instrução e informação que nos é “permitido” obter. Felizmente, algumas mentes poderosas por natureza escapam da mediocridade e da conformidade induzida pela escolarização, pela socialização e pela religiosidade. São como meteoros que nos cativam o olhar e a reflexão, espíritos mais livres e conscientes que não se detém diante dos obstáculos ameaçadores que se interpõe entre as verdades que tentam nos esconder e suas mentes inquisitivas e aguçadas. Estes sim são os mentores anônimos da humanidade, e não os factóides musculosos, plastificados e “comprados” que a mídia nos apresenta como “fenômenos”, “imperadores”, “superastros”, “feras”, “supermodelos”, “gênios”, "heróis", "deuses", "musas" e outros adjetivos que impressionam os mais desavisados dentre nós.


Os “luminares” da sapiência humana raramente nos são indicados para leitura ou apreciação de suas idéias. Já dizia Nietzsche: “As maiores idéias são os maiores eventos”

Poderíamos ao menos estar em uma fase superior de idiotice; num nível mais elevado de cretinice, em outra dimensão de estupidez e numa etapa mais adiantada de nossa natural macaquice. Mas nem isto nos foi permitido. Permitem apenas que nos intoxiquemos com os estupefacientes que são convenientes ao “Estado”: festas seculares e religiosas, carnavais, esportes, tele séries, telenovelas, romances e auto-ajuda que em nada nos ajudam.

A própria academia, que supostamente deveria prover liberdade de pensamento, apoio a criações originais e autonomia intelectual aos que nela ingressam, acaba por engessar docentes e discentes através de exigências burocráticas e técnicas. O volume de produtividade é um critério que pesa mais que o critério qualitativo. Ignora-se ou esqueceu-se que certos frutos demoram muito a amadurecer. Que certas obras primas levaram uma vida inteira para serem concebidas, e que o valor qualitativo delas equivale ao valor de muitos milhares de obras medíocres reunidas.

Dentro desta mediocridade hipermoderna em que chafurdamos, percebo seis alternativas possíveis:
1) O futuro sob a proposta capitalista em vigor, onde certo bem-estar social e razoável nível de consumo de fetiches restringem a agressividade natural e as pulsões danosas à coletividade, enquanto houver conformismo entre as massas e comodismo com o status quo vigente.
2) O futuro sob a proposta neo-socialista, com seus dogmas de inversão do poder das mãos das minorias para as maiorias, com melhor repartição dos bens naturais e sociais, e com todo o corolário de reformas, readaptações e consequente comoções sociais que destes processos se originam.
3) O futuro sob a proposta ambientalista, dos que pregam um refreamento radical no consumo, com a seqüela do desemprego às portas, com a contenção demográfica que fere direitos adquiridos, com o retorno a níveis de exploração ambiental pré-industrial, com os programas de “desenvolvimento sustentável” e preservacionismo das espécies vegetais e animais a todo custo.
4) O futuro sob a proposta neo-cientificista de globalização humanitária e democrática, integração dos esforços humanos em prol da erradicação da pobreza e das guerras, em prol da exploração espacial, formação de grandes unidades federais de nações cooperativas, desarmamento nuclear imediato e investimentos em pesquisa.
5) O futuro sob a proposta filosófica de busca de valores e princípios éticos e morais realmente universalistas, a busca do autoconhecimento e da reforma pessoal, a busca da sabedoria como meta dos esforços de governos e suas instituições, inclusive as educacionais; o estoicismo, o epicurismo e o existencialismo aplicados de forma consciente e razoável em substituição aos superados dogmas nacionalistas, racistas, especistas, sexistas e supersticiosos.
6) O futuro sob a perspectiva religiosa. Por estranho que possa parecer, as propostas deste gênero de saber são as mais prováveis ou plausíveis de se concretizar. E porquê ? Elas são escatológicas ( do grego éschatos, postremo ), apocalípticas, e falam do devir humano sobre a Terra com total pessimismo, com poucas exceções. Falam do "Final dos Tempos", do "Juízo Final", do "Nirvana", do "Paraíso", do "Inferno", do "Além". O sistema conceitual da religião foi todo construído a partir da ritualização do cotidiano, sobre a observação dos fenômenos naturais. Observando o nascer e o morrer; o dia e a noite; o bem e o mal; o prazer e a dor; a "sorte" e o "azar"; as regularidades e os imprevistos da vida; os amores e os ódios; os inícios e os fins dos processos naturais, o Homem elaborou grandes estruturas teológico-explicativas para estes fatos e fenômenos. Não encontrando as "razões naturais" que respondessem "convenientemente" aos seus questionamentos e anseios, buscou no mundo da imaginação,onde reside o sobrenatural, as crenças intuitivas e os arquétipos arcaicos herdados, as explicações que se "adequassem" as suas expectativas, propósitos, interesses e esperanças. Uma vez que todas estas estruturas explicativas se tornaram monopólio do sacerdócio letrado, passaram a ter utilidades políticas além de religiosas; e assim o é ainda hoje. O estranho então, mas não inexplicável, é que o Homem caminha de forma quase deliberada para a auto-extinção, fazendo das previsões religiosas a aposta acertada!! O "Armageddon" hebraico/grego ( grego Ἁρμαγεδών Harmagedōn ) pode mesmo estar próximo devido aos cenários de auto-destruição da espécie que o Homem vem industriosa e aceleradamente arquitetando! Quais as possibilidades de uma verdadeira catástrofe final ocorrer? Segundo o cientista e escritor Isaac Asimov, temos vários "panos de fundo" probabilisticamente possíveis : o místico "Ragnarok", que corresponde a qualquer das "batalhas finais" entre os deuses e os homens rebelados pregadas pela doutrinação religiosa mundial(?); o aumento da entropia cósmica; o colapso gravitacional das galáxias; a morte solar; o bombardeamento da terra por meteoros ou asteróides; a colisão da Lua com a Terra; o cataclismo tectônico do interior do planeta; a glaciação ou o aquecimento extremo causado pela mudança climática que se aproxima; a "chuva de raios cósmicos" e a radiação ultra-violeta causada pela eliminação da camada de ozônio; mutações aceleradas e fatídicas do DNA humano; novas pestilências e doenças; a guerra atômica e a contaminação nuclear da atmosfera; o esgotamento total dos recursos naturais e a subsequente extinção das espécies animais superiores, incluindo a nossa. Estes panoramas dramáticos, por incrível que pareça, são ansiosamente aguardados por uma parcela significativa da própria espécie humana, a parcela dos que se acreditam salvos ou eleitos dentro de suas respectivas religiões e visões de mundo.

Bem, a questão é que se continuarmos sendo “teleguiados” pela niveladora e mediocrizante ideologia midiática promovida por classes dominantes e excludentes, não seremos “nós”, a maioria, a escolher qual destas alternativas, ou outras, melhor nos convém. Continuaremos seres reprimidos, domesticados e castrados, verdadeiros mortos-vivos na superfície deste maravilhoso orbe, sujeitos a decisões, a nosso respeito, tomadas por irresponsáveis, ignorantes e corruptos, que designarão o que seremos enquanto seres sociais e enquanto coletividade.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Oração pagã

Agradeço aos obstáculos espermicidas que bloquearam a chegada ao óvulo de meus irmãozinhos gametas. Aquela sim foi uma maratona concorrida. Eu contra centenas de milhões de ávidas células haplóides loucas para se aconchegarem na pequena oosfera perfumada! Meu primeiro grande teste de resistência e vitalidade. Ainda me lembro da irresistível atração exercida por aquele minúsculo sol de vida! Não, sou um mentiroso, na verdade não me lembro, apenas "viajei"..., mas bem pode ter sido assim...


Agradeço as condições especiais da sociedade e da demografia humana que permitiram com seus já abundantes recursos na década de setenta que eu sobrevivesse ao parto, vencendo assim meu segundo grande teste, o nascimento.


Agradeço as condições específicas da natureza químico-física e cósmico-planetária que permitiram o surgimento de vida auto-reprodutiva e mutante neste orbe em particular.

Agradeço aos valentes antepassados de minha espécie que lutaram, mataram, caçaram e experimentaram a fauna e a flora para distinguir o que era ou não comestível, suprindo as necessidades alimentares dos bandos primitivos. Agradeço aos que morreram nestas experiências vitais. Agradeço aos que passaram por desoladoras, dolorosas e enlouquecedoras tragédias e privações pessoais, familiares e tribais para que a espécie continuasse prosperando, até que chegasse a vez de minha combinação genética particular dar o salto da latência para a vivência.

Agradeço aos ancestrais Cro-Magnons que chacinaram os Neandertais e garantiram o espaço de expansão de nossa egoística subespécie.
Agradeço ao grande meteoro e a subseqüente erupção vulcânica do planalto do Decã que extinguiu os répteis gigantes, abrindo caminho para a evolução dos mamíferos, o que por sua vez pavimentou a trilha para o desenvolvimento do Homo Sapiens.


Agradeço aos antigos sacerdotes e almoxarifes egípcios, sumérios, acadianos e assírios que criaram a linguagem escrita no intuito de gerenciarem os estoques alimentícios reais e públicos, o que permite com que hoje eu venha a lhes prestar homenagem e agradecimentos através deste mesmo artifício simbólico.










Agradeço a estrutura institucional político-estatal do período de minha infância que disponibilizou vacinas e tratamentos sem os quais eu talvez não tivesse chegado à maturidade. Agradeço àqueles que trabalharam para encher, com seus tributos, os cofres públicos, tornando estes benefícios possíveis.


Agradeço aos que instituíram, construíram, plantaram, estabeleceram e estabilizaram todo o complexo edifício sócio-político-cultural desta região habitada do planeta, fornecendo as bases sobre as quais girou a roda da loteria cromossômica, um dia me elegendo para a chance vital da existência.

Agradeço aos imperativos hormonais, enzimáticos e bio-fisiológicos dos mamíferos, que tornaram a reprodutividade do Homo Sapiens uma realidade, e o nascimento dos indivíduos uma probabilidade viável.
Agradeço ao papai e a mamãe por cumprirem inconscientemente a risca os imperativos fisiológicos reprodutivos da espécie, encontrando-se como um par-casal e copulando com relativo sucesso, dando origem ao hibrido dos dois, eu.
Agradeço ao suposto Poder Superior que preside as leis que regem todo este quadrante cósmico, desde sua origem na singularidade do Big Bang, até o presente momento: 16h19min e 09 segundos do dia 13/01/2012 D.C; data-convenção terráquea, de base 10, indexada ao sistema de base 60, que designa um curtíssimo espaço de tempo histórico, mas que oculta um tempo cósmico muito mais denso, dinâmico e contínuo de aproximadamente 20 bilhões de anos terrenos. Agradeço finalmente as anti-leis que regem a aleatoriedade, a entropia, o caos e o acaso, ofertando-me assim ao mundo e o mundo à mim; também sou grato ao infinito pelo brevíssimo período de tempo que me cabe, desde o momento em que apareci na esteira da existência terrena até o dia, logo mais à frente, em que desaparecerei numa volta patética e pouco lamentada à eternidade potencial.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Nano Arte

A Pinacoteca Municipal de Franca está recebendo a “Nano Arte”. Apesar de bastante limitada em termos de quantidade e variedade, a exposição traz ao público francano um conceito artístico extremamente interessante, que combina ciência, tecnologia e arte.
A nanoarte é uma expressão artística recente, derivada da nanotecnologia. Através de microscópios de varredura, estruturas físico-químicas menores que 100 nm são interpretadas e convertidas pelo artista, trazendo ao público esse verdadeiro “nanouniverso”, com toda poesia, sutileza e beleza inerentes a ele e a interpretação do “nanoartista”.
Óxidos se transformam em orquídeas e em verdejantes vales, sistemas circulatórios em caudalosos rios, minérios são apresentados em toda sua beleza geométrica, enfim, a nanoarte é uma verdadeira viagem ao microcosmo através das lentes dos microscópios de varredura e da subjetividade do artista.

O nascimento do universo representado no "Tungstato de Estrôncio".

"Óxido de Estanho" da forma ao "O Tubo".

Um aguapé representado pelo "Óxido de Cério".

"Óxido de Estanho", na visão do artista se tranforma na Torre de Babel.


Saimov: direto do "Louvre francano"

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

REVEILLON DO BIGODÓN

A ceia do Mauricinho vai ser indigesta nessa passagem do ano, principalmente após a situação que ele ficou na partida que disputou contra Saimov na fria noite dessa sexta-feira do verão francano. Mauricinho (negras), pasmem, ainda ficou uma meia hora procurando saída para o "insaível". Fumou uns cinco cigarros, tossiu até quase colocar o pulmão pra fora, coçou o bigode...e deitou o rei.
A última partida oficial do ano entre Saimov e Mauricinho só veio confirmar uma tendência que se acentuou ainda mais em 2011, quando o velho Karamazov ficou um mês inteiro sem vencer o jovem e vigoroso Saimov.
Pode procurar a saída até o próximo reveillon Mauricinho. "Fala muito"!

By: Imprensa independente do Banquinho.