quarta-feira, 25 de abril de 2012
Epitáfio em homenagem ao Srº Lélio:
quarta-feira, 18 de abril de 2012
PRIMEIRO CONCURSO CULTURAL "BANQUINHO DO XADREZ - PRÊMIO O BIGODE DE OURO
Todos os frequentadores do querido e imundo "Banquinho do Xadrez" perceberam a decadência de Mauricinho Karamazov. Realmente não é mais o mesmo. De uma das principais potências da praça, nosso bom e velho bigode (mais velho que bom) se transformou em uma espécie de Guarani, ou seja, uma quarta ou quinta força nos tabuleiros. Até o adolescente Tiaguinho vem desbancando a velha Capivara.
Inclusive, a clássica risadinha irritante está se transformando em uma decadente tosse, fazendo com que ficasse conhecido, nos ultimos tempos, por Mauricinho - o tussígeno.
Apesar disso, reconhecendo a importância dessa lenda-viva para o Banquinho, nosso blog vem a publico prestar uma merecida e carinhosa homenagem ao amigo decadente.
Estão abertas as inscrições para o 1 CONCURSO CULTURAL DO BANQUINHO DO XADREZ.
Complete a frase: "O MAURICINHO NÃO É MAIS AQUELE...."
As frases mais criativas serão premiadas:
1 lugar: livro "Como vencer finais de peões", de Saimov Kasparento (obra autografada).
2 lugar: CD "Dud's Tozinsky In Concert" - Live Banquinho do Xadrez. Os maiores sucessos do Nirvana na inconfundível voz do Sinatra dos trópicos.
3 lugar: livro "Tardes estressantes", de Rafinha Bata Branca. Um contundente e comovente relato das peripécias e diligências do nosso Oficial de (in)Justiça.
4 lugar: livro "Xadrez Relâmpago", de Achilles Abreu e Pedrinho Tortoise.
5 lugar: livro "Pare de beber em 5 lições", de Evair Racional.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
E AGORA JOSÉ?
E de repente, não mais que de repente, a Península Ibérica separa-se do continente europeu, transformando-se em uma imensa “Jangada de Pedra”. A morte para de exercer suas costumeiras atividades, deixando incomodados os capitalistas do ramo defuntístico e aflitos os entes que, vendo seus velhos não morrerem, anseiam pelo fim das “Intermitências da Morte”. Uma epidemia de “Cegueira” culmina com respeitáveis senhores cedendo o monopólio da vagina de suas esposas a terceiros, tudo em nome do pão de cada dia. Maria Madalena tem sua noite de amor com um esfarrapado homem de Nazaré, contrapondo aos sagrados dogmas o “Evangelho Segundo Jesus Cristo”. A família Mau-Tempo vê suas gerações serem consumidas pelo latifúndio em uma autoritária Portugal.
E agora José morreu...
Romancista, socialista, mordaz crítico social, e porque não filosofo? José Saramago foi antes de tudo um homem profundamente sensível frente às questões sociais de seu tempo. Fez de seus romances sua arma política e o fez com uma sensibilidade, graciosidade e profundidade inconfundíveis. Sua refinada ironia, sagaz percepção e lucidez analítica, forjaram uma obra literária de inquestionável excelência, que combina os talentos estilísticos mais caros aos herdeiros de Camões com uma intensa paixão pelas causas sociais.
Nascido em 1922, José Saramago passou pelo século como uma cometa em noite escura, iluminando e deixando atrás de si a marca indelével de sua passagem. Mergulhar nas intensas e por vezes áridas páginas de sua obra, por vezes é como fazer uma viagem à uma Portugal desconhecida de nós brasileiros, e por outras, parece com um “descer às profundezas da alma humana”, onde habitam nossos desejos, instintos e receios mais inconfessáveis.
E morreu o tal José...
terça-feira, 3 de abril de 2012
MAURICÍN KARAMAZOV VS DUD´S COBAIN SINATRA " - Houston!! - We have a trouble...!!"
Terça-feira, 03/04/2012. Um relato imparcial/esculachado dos eventos desta noite. "-Houston!! -We have a trouble...!"
A tarde deste
dia se transmutou gradualmente em uma noite fria e ventosa, o que sempre
reforça a sensação de frio das noites francanas. As frias noites de Franca "do Imperador (!??!)" são
proverbiais. Há uma lenda que diz que os tupis nativos da região já se
queixavam com os pioneiros e tropeiros analfabetos, cachaceiros, sujos, ambiciosos e inescrupulosos, da "fria
escuridão" do Sertão do Capim Mimoso, atual Planalto Francano, assim que chegava ao término o verão. Sabiam estes inocentes príncipes do mato que estavam eles a mais de mil metros de altura acima do nível do mar? Que estavam "atrasados" em mais de mil anos de desenvolvimento técnico em relação aos branquelos barbudos que os submetiam? Provavelmente não. Mas por outro lado sabemos bem a solução que os nobilíssimos pioneiros deram ao problema do
indígena desarmado e friorento: a eliminação covarde da etnia inteira no noroeste do estado...
Bem, para não "aquilizar" o caso, e encurtando a narrativa,
o antigo Pouso dos Bagres prosperou, em termos, repito, "em termos", dando origem a uma cidade chamada Franca das Três Colinas, a Franca do "Imperador Tupiniquim", conhecida atualmente como a "capital
brasileira do calçado", ainda que este título seja contestado com justa razão pela gaúcha
Novo Hamburgo...
Que seja! Grande coisa..., "big deal" diriam os Yankees. Temos o "Magazine Luiza", os troféus empoeirados do basquete e o relógio do sol para nos orgulharmos, não? Isso sem contar nossa mais importante instituição: o Banquinho do Xadrez do calçadão da Marechal Deodoro! Uma controvérsia insípida com os gaúchos só nos afastará mais de nossa meta, discutir uma simples partida de xadrez.
Astronômica e antropocentricamente mais importante que isto é o fato de que a cidade hoje é mais
conhecida pelas enormes "capivaras" bípedes/fumegantes que rondam o calçadão em torno de seus
tabuleiros de xadrez; é mais importante o fato de que o Thiaguím Guitarman agora é um cara emancipado; de que a ausência do Xandão não foi questionada; de que o Ivair Racional Superior estava sóbrio e comportado esta noite; de que nosso querido Celsius Kindervox não está no Nirvana, significando que ainda se encontra entre nós, os desiluminados; de que o Pedrinho "osso duro" continua a desenvolver seu xadrez independentemente de nossa orientação, para seu próprio bem; de que o Rafa "Little Bailiff" esta desencalhado e menos carente afetivamente, o que não o desimpede de suas diligências noturnas (à serviço, diz-se); de que o amigo Ebola se deu conta à tempo de que existe um dispositivo moderno chamado "balança", e que este pode o ajudar a controlar sua expansão horizontal; de que o "Japa" não estava de ressaca e nem se embebedando; de que o Klau continua em liberdade; de que o "Seu" Lander continua nos entretendo com seus aportes eruditos em pleno entretenimento enxadrístico; de que o Profº Aquiles não culpou explicitamente a cantoria punk-rock/melodiosa-odiosa de Dúdis pelos seus mal-escolhidos movimentos intra-tabuleiro; de que há notícias de que nosso "Fundador Todo Foderoso", Profº Maurilão Karamazov esta vivo e em atividade; de que o nosso co-fundador Bibí Palhacín Killer continua buscando a hegemonia enxadrística entre as capivaras com suas armadilhas matutas intra-tabuleiro; e finalmente de que o Profº Saymov, prevendo e torcendo por uma derrota humilhante de Mister Maurício Karamazov Tussígeno, lembrou-se de trazer consigo o artefato captador de instantâneos e raptor de almas, a câmera fotográfica.
O resto, "todo" o resto - desde os extintos dinossauros e bagres de nossos córregos, passando pelos calçados caros e mal-acabados; pelas carteiras de couro falso que descosturam vendidas por "amigos" à "amigos"; pelos pedintes viciados que se sentem atraídos e à vontade entre a capivarada reunida e ruidosa; ou
ainda pelo massacre matreiro dos indígenas pelos bandeirantes (diga-se: que destruíram as evidências e registros dos extermínios coletados pelos jesuítas, que supostamente poderiam servir para uma tardia, pobre e, admitamos, mesquinha reparação social para os descendentes tupis-guaranis em virtude das atrocidades sofridas por seus antepassados..., episódio que, em si, nada tem a ver com o xadrez propriamente dito[?]...), - é apenas parte da história local, inclusa esta na embaraçosa e sangrenta história da herança brasileira.
As "vozes do além" que se manifestam durante as cruéis partidas disputadas no calçadão bem poderiam ecoar o lamento destes nossos ancestrais nativos, reivindicando o que era seu por tradição e pré-histórica ocupação..., mas devo me concentrar e parar de "aquilizar" o comentário da partida, da qual, aliás, até agora nada foi dito...!!
Pois então, para "desaquilizar" voltarei já-já (15' aquilianos, no máximo!) à partida que deixou Mister Maurício Karamazov tão cabisbaixo e tussígeno; deixando tão exultantes as sinistras e sarcásticas "vozes palpiteiras do além"."- Pare de aquilizar porra!!".
Pois bem, a abertura das brancas, conduzidas por Dúdis Cobain, que estava mais
cantarolante e chato que de costume, foi a já típica P4D, seguida pela defesa
não-ortodoxa, semi-suicida e desaconselhável inventada pelo próprio teórico enxadrístico Srº M.
Karamazov, o tussígeno. Ele responde à P4D com P3CR, preparando o fianqueto do
bispo branco, sempre com a má intenção de atacar o P4R que costumeiramente é o
segundo lance de Dúdis, o amável barítono irritante. O que aconteceu desta vez, para
não aquilizar ainda mais o kafkiano relato, foi que
Tozinsky Cobain resolveu tentar "estabilizar" o jogo na ala de sua
Dama, e obteve sucesso em seu intuito. A dama de Mister Karamazov fez apenas um
infeliz lance que a colocou na casa 2BD, ali permanecendo como se fosse uma estátua de sal, petrificada
pelo medo, como a esposa de Ló ao ousar contemplar a furiosa destruição com fogo e enxofre caídos do "céu"(??) sobre Sodoma e Gomorra, lançados das alturas pelo misericordioso YHWH (Iavé). Então Dúdis, o menestrel do punk-rock desafinado, decidiu iniciar um ataque
no flanco do rei adversário, percebendo que Mr Karamazov Tussígeno não sabia se
atacava ou defendia. Sinatra Cobain, o artista menosprezado, iniciou então um
avanço de peões que desestabilizou o "emocional"
e o "racional" de
Karamazov Tussígeno, que acabou por desperdiçar ainda mais tempo importante, já "aquilizado" desde o início, movendo seu cavalo
inexpressivamente três vezes.
Bom, para não aquilizar
até o fim o comentário, o fato é que quando Tussígeno Karamazov deu por sí, Tozinsky (o
sósia latino, sofrível, da síntese de Kurt Cobain e Frank Sinatra) , já tinha firmado um
peão em 6BR protegido por outro em 5R. A alternativa que evitava o mate - uma vez que Tozinsky, o Cavaleiro dos Buquês descartados, posicionou sua rainha em 3R, ameaçando
entrar pela diagonal em 6TR - perdia material decisivo, uma torre ou mais. A
paralisia estupefata de Karamazov o impediu de encontrar qualquer solução para
evitar o mate iminente, preferindo este verdadeiro gentleman encerrar de forma cortês a partida deitando
o rei, tossindo bastante, e apertando a mão calejada, disforme e cheia de bactérias de Dúdis
Tozinsky, não sem antes pedir para que a partida não fosse postada no Blog,
pedido este que foi peremptoriamente negado devido a importante lição que a mesma
contém aos incautos de plantão, qual seja, "nunca,
mas nunca mesmo" deixe sua Dama fora de foco, pode ser fatal no xadrez
e causar terríveis dores-de-cotovelo na vida extra-tabuleiro, se é que para
Karamazov Tussígeno existe tal vida..., ou se tal vida é Vida... As implicações desta visão de mundo são por demais
interessantes para serem debatidas aqui, neste breve relato, merecendo um ensaio à parte..., mas ora-bolas, chega de "aquilizar".
Devo enfatizar a presença e o testemunho ocular desta destrinchante partida pela Vossa Reverendíssima pessoa do "Sumo Sacerdote Pontifical" dos capivaras francanos, Mister Manoel Sírio-Cearense, imigrante, doutor²(doutor ao quadrado - médico e advogado), engenheiro, físico, casuísta, bardo, voluntário de guerra, piadista-humorista, cientista espacial, ficcionista consumado, escritor de renome e eminência parda em vários círculos de poder locais, regionais, nacionais, internacionais e cósmicos. "- Ave-Hail Dom Manoel!!".
O candidato a futuro prefeito da cidade também se fez presente entre os mal-cheirosos capivaras - especialmente o Dúdis - contribuindo para o "miasma insalubre" local com seus odores específicos: Srº Baixinho Pé de Cana. Obrigado à Vossa Excelência pela encantadora e ao mesmo tempo deprimente e espoliante presença; e obrigado por fazer dos roedores muquiranas seres mais generosos através de suas desinteressadas "doações" de campanha..., parte das quais se converterá inevitavelmente em álcool etílico, a mais eficaz das drogas causadoras e curadoras do terrível delirium tremens dentre as existentes no mercado, no branco e no negro. Dúdis Tozinsky, o inveterado em abstinência forçada que o diga... Fui! Good riddance me!
Abraço aos irmãos
capivaras do calçadão francano.
Dúdis Tozinsky
Cobain Sinatra Bezerra Pavarotti Belchior, o canalha despretencioso.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
O QUE O MAURICINHO ESTÁ FAZENDO???
O DIBX (Departamento de Imagem do Banquinho do Xadrez) recebeu da CCCBX (Comissão de Controle Comportamental do Banquinho do Xadrez) essa curiosa imagem de Mauricinho Karamazov. O que os amigos acham que ele estava fazendo?
a) Orando com a face voltada para Meca implorando pela ressurreição do bispo preto.
b) Procurando o bispo preto.
c) Fazendo um ritual para ivocar o espírito de "Pai Alê-Kine de Ogum", mestre enxadrista africano.
d) O que ele estava fazendo é censurado e só pode ser dito em um blog para maiores de 18 anos.
e) Batendo a cabeça no banquinho após perder para o Achilles.
f ) Não aguentou a diarréia após comer um super macarrão do chinês.
g) Tinha acabado de comprar uma carteira do Ivair e tava procurando o zíper que estragou na hora.
h) Teve uma cefaléia após escutar os hits do Nirvana cantados por Dud's Cobain e Ivair Mercury.
Saimov
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Teacher - Do Outro Lado da Mesa
Sexta-feira à tarde eu estava na casa de papai. À noite ele
teria que lecionar, então propus que me deixasse ir com ele para assistir. Fomos,
e eu pude observar como era seu trabalho. Eu o vi conversar com a diretora, com
os funcionários e com outros professores. Ajudei-o a preparar a aula e a sala. Por
fim, assisti à aula, não como aluna, mas como visita. Como a filha do
professor.
Nunca me imaginei entrando numa classe daquele jeito, sem
ser aluna. Nunca olhei para os funcionários da maneira como olhei naquele dia.
Nunca estive diante de uma diretora numa situação como aquela. Naquele dia eu
pude observar as coisas do ponto de vista de um professor, de um funcionário. E
só então percebi que quando se é aluno não se tem noção de nada. Quão
limitada é a nossa visão. Quão arrogantes somos em nossas posições, sentados em
nossas carteiras, olhando para os professores com desdém.
Lembrando-me agora desses
últimos treze anos, não sei se rio ou se lamento.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Extremo trágico.
Um ser humano pode estar feliz mesmo enquanto aguarda a eletrocussão, via cadeira elétrica, no corredor da morte. Já outro, infeliz, acumula coragem para suicidar-se em um big hotel de Hollywood.
O que parece predispor cada um destes estados de consciência é a presença ou ausência de “paz de espírito” obtida ou não enquanto se alimenta a esperança ou a desesperança dentro de si. Desesperar-se mesmo tendo uma enorme gama de recursos à disposição, e não entrar em desespero mesmo quando o último recurso ao governador do Estado foi negado, depende, portanto, de um equilíbrio ou desequilíbrio interno. Dois extremos que se chocam vindos de direções diferentes: ânsia de viver, desejo de morrer. Ter ainda algo mais para falar, e nada mais ter a dizer. Históricos individuais que se julgam, condenam e sentenciam. Dramas pessoais que, conduzidos por trilhas diferentes ou mesmo antagônicas, deságuam na mesma foz, a morte. Uma trilha segue o caminho da carestia e da fome, que leva ao latrocínio, prisão, condenação e execução; outra passa pela abundância, fastio e saturação, e leva à desilusão, à depressão e ao auto-extermínio. Um dos indivíduos foi privado de tudo pela sociedade, inclusive e finalmente da vida, mas ainda assim encontrou as respostas que buscava, ou soube fazer as perguntas certas no momento critico. O outro usufruiu e consumiu de tudo, inclusive a própria vida. A fartura o levou a lassidão de espírito, e esta não lhe permitiu encontrar uma estratégia melhor para lidar com seus problemas e frustrações que a auto-eliminação.
Necessidades materiais e necessidades imateriais. Um deles obteve muito das primeiras; o outro apenas o essencial da segunda, tardiamente. Tardia também foi a conversão do ladrão crucificado com o Cristo. Mas esta conversão lhe garantiu a “paz de espírito” necessária para enfrentar a morte que chegava. O terceiro crucificado morreu rebelado, em amargura e tormento. Padrões recorrentes.
Instigados ao consumo dos mais supérfluos bens por políticos demagogos (que prometem satisfazer estas demandas inventadas), e publicitários hipócritas (que visam apenas aumentar seus ganhos oferecendo ao consumidor os mais diversos ‘venenos’ e ‘bugigangas’), os indivíduos acreditam estarem em “desvantagem” ou em condições “injustas” por não poderem arcar com a aquisição destes produtos, que não são indispensáveis do ponto de vista das necessidades vitais. Uma vez de posse dos extravagantes fetiches sociais, o indivíduo transforma seu ‘uso’ e ‘posse’ em uma “segunda natureza”, em hábitos por vezes nocivos e dispendiosos, sem mais se dar conta de que os busca por curiosidade, vício, inveja e ciúmes.
Alimentação, vestuário, moradia, saúde, segurança e lazer são necessidades primárias. Mas a desnaturação desta última, o lazer transformado em entretenimento, tem feito dos indivíduos meros fantoches e marionetes nas mãos dos produtores de ilusões, fantasias e hábitos. As tradicionais danças folclóricas e festas populares que celebravam o solstício ou as colheitas, o casamento ou o nascimento, a vitória ou a morte, tornaram-se, nas mãos dos publicitários, o “Carnaval”, “a Festa do Peão”, o “Circo da Fórmula 1”, o “Big Brother”, a “Oktoberfest”, as “Olimpíadas”, a “Copa do Mundo”, a “Festa Junina”, o “Natal”, a “Páscoa”, o “Réveillon”, o “Dia das Mães”, “dos Pais”, “dos Namorados”, “das Crianças”, “da Consciência Negra”, “do Índio”, o “Mardi Gras”, etc.
A saturação, assim como a carestia extrema, podem predispor o individuo ao auto-extermínio. O suicídio é como uma arapuca armada pela própria pessoa. É uma idéia alimentada com regularidade, dia após dia, hora após hora. Uma vez aceita como “solução final” ou “estratégia definitiva”, é muito difícil elaborar qualquer argumento externo que modifique a convicção interior do individuo obcecado por esta triste idéia. O sociólogo Durkheim (Suicide, 1897) sugeriu diversas causas sociais para este fenômeno, e classificou-o em três tipos: A) o suicídio altruísta, que o individuo presta à seu grupo ou comunidade. Anciões que não querem se tornar um peso aos demais. Pessoas que detém segredos que comprometem a muitos de seus aliados e que devem “morrer” com ele. B) o suicídio egoísta diz respeito a uma inadaptação ou incapacidade de lidar com situações de pressão que incidem sobre a psique do individuo. Segundo Durkheim, as taxas de suicídio se elevaram muito após o advento da Revolução Industrial com seus desdobramentos e conseqüências. C) o suicídio anômico: são suicídios decorrentes de caos social, revoluções, desordem generalizada, guerra civil, depressões econômicas, catástrofes naturais, epidemias, etc.
Já alguns psicólogos como o americano Jack D. Douglas (The social meanings of suicide, 1967) e o francês Jean Baechler(Les suicides, 1975), creditam o ato do suicídio a motivações inerentemente pessoais, ou seja, à biografia do suicida. O suicídio seria sempre uma resposta do individuo a crises “internas”, já que as “externas” não determinam o auto-extermínio de todos que a suportam. Segundo estes autores, o suicida se fecha em uma armadilha psicológica estratégica, que para ele é como um consolo, a válvula de escape última, o retorno ao útero protetor da inconsciência. Quando as condições se tornarem para ele insuportáveis, eis sua forma de fuga.
Segundo o escritor francês Albert Camus: “não há mais do que um problema filosófico verdadeiramente sério: o do suicídio. Julgar se a vida vale ou não ser vivida é responder à questão primordial da filosofia”(Le mythe de Sisyphe, 1954). Já seu contemporâneo e ex-colega Jean Paul Sartre expressou-se assim diante do dilema: “Se estou mobilizado em uma guerra, esta guerra é minha guerra: ela é à minha imagem e eu a mereço. Mereço-a antes de tudo porque podia tê-la esquivado com o suicídio ou com a deserção: estas possibilidades extremas devem sempre estar presentes para nós quando temos de encara-las em uma dada situação”(L’être et néant, 1943).
Em geral, os filósofos de origem religiosa condenam o ato suicida por diversas razãos, dentre as quais: é contrario à vontade Divina, assim em Platão, "Fedro", cap. 62, e em Santo Agostinho, "Cidade de Deus", cap. I, p, 20; é contrário ao destino em Plotino, "Enéadas", cap, I, p, 9; é contrário à lei natural em São Thomás de Aquino, "Summa Theologiae", cap. II, 2, p, 64-65.
Outros filósofos de formação mais secular são mais simpáticos ao fenômeno. David Hume chega a dizer que, como nada escapa à vontade divina, o mesmo ocorre com o suicídio( Essays, of Suicide, 1741-2). Para Kant, trata-se da transgressão de um dever, pois como ele mesmo o diz: “o homem é obrigado à conservação da vida somente porque é pessoa”(Met. Der Sitten, II, parte I, artigo 6). Para Schopenhauer: “ o suicídio não é em absoluto a negação da vontade, mas um ato de forte afirmação da mesma vontade, pois o suicida quer a vida e só não esta contente com as condições que tem”( O Mundo como Vontade e Representação, I artigo 69, 1819). Para Fichte, era ao mesmo tempo um ato de covardia quanto de coragem. Ele argumentava: “ em relação ao homem virtuoso, o suicida é um covarde; em relação ao miserável que se submete à desonra e à escravidão para prolongar por alguns anos o sentido mesquinho da própria existência, é um herói”(Sittenlehren, 1789, p, 268). Walter Benjamim, filósofo judeu/alemão disse: "A personalidade destrutiva vive a sentir, não que a vida é digna de ser vivida, mas que o suicídio não vale o incômodo"(O caráter destrutivo, 1931).
Para Aristóteles o suicídio é injusto para com a comunidade à qual o suicida pertence( Ética à Nicômaco, V, 11, 1138-9).
Certos filósofos consideraram lícito ou mesmo necessário o suicídio. Assim achavam os estóicos, entre eles Cícero. Disse ele: “ Quem possui em maior número as coisas segundo a natureza, tem o dever de permanecer em vida; quem , ao contrário possui ou crê-se destinado a possuir em maior número as coisas contrarias tem o dever de sair da vida. Disso resulta claramente que o sábio tem às vezes o dever de sair da vida apesar de ser feliz e o tolo de permanecer na vida apesar de ser infeliz”(De Finibus, III, 18-60).
Epicuro e Sêneca também não desaprovavam o ato. O primeiro dizia: “ É desventura viver na necessidade, mas viver na necessidade não é em absoluto necessário”. E o segundo: “Agradecemos à Deus que ninguém pode ser segurado na vida contra a própria vontade: é possível esmagar a própria necessidade”(Epistulae Morales ad Lucilium, cap. XII.64DC).
Alguns literatos também opinaram lúgubre e espirituosamente a respeito do suicídio. Por exemplo, George Borrow(1803-1881), novelista e viajante inglês disse certa vez: "Se eu tiver de cometer suicídio, devo sempre encontrar meios de fazê-lo o mais decorosamente quanto possível; a decência, tanto na vida quanto na morte, nunca deve ser negligenciada" . Arthur Miller, dramaturgo norte-americano, dotou seu personagem "Quentin", da peça "After the Fall", de 1964, da seguinte fala:" Um suicídio mata duas pessoas, Maggie. Isto é o que ele faz" . O poeta, novelista e tradutor italiano Cesare Pavese escreveu certa vez a um jornal, em 1950: " Por grandes períodos você sente , profundamente dentro de si, a tentação de cometer suicídio. Você se entrega a isto rompendo suas defesas. Você era criança. A ideia de suicídio era um protesto contra a vida; morrendo, você escaparia deste ardente desejo pela morte" . Uma interessante colocação também se encontra no discurso do estadista e advogado norte-americano Daniel Webster durante sua argumentação, em 1830, sobre o assassinato do capitão americano White:" Não há refugio da confissão exceto o suicídio, e o suicídio é a confissão".
Por último, mas não menos importante para a discussão, temos os dizeres de Zaratustra, por Nietzsche: “Eu louvo a minha morte, a morte livre, que vem porque quero. E quando quererei? Quem tem uma meta e um herdeiro, quer a morte na hora certa, e para a sua meta e seu herdeiro”(Assim falou Zarathustra, I, Da livre morte, 1883-5). Tem-se também do mesmo pensador a seguinte frase:"O pensamento do suicídio é um poderoso consolo: por meio dele consegue-se atravessar muitas noites ruins" (Máximas e Interlúdios, pg 4 ).
Em vista dos exemplos da complexidade do tema, nada tenho a acrescentar que contribua para a discussão no momento. Posso apenas dizer que o sofrimento evitado por uns no morrer, se transfere imediatamente, nesta ocasião, para outros que permanecem no viver.
Dúdis Tozinsky Cobain.
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