terça-feira, 22 de maio de 2012
Margem da Realidade.
Bom dia amigos do Banquinho.
Pretendo através deste relato micro-histórico narrar-lhes o episódio de uma fita cassete e seu conteúdo. De como se perdeu e de como se reencontrou uma simples música. A bem da verdade, eu nunca a considerei uma simples música, uma música qualquer. O significado dela e suas implicações na história de minha vida se desdobram até agora, enquanto a ouço. Então, ela não é uma música qualquer para mim! Mas pode sê-lo para outros. Poderia ter sido “apenas mais uma canção” até mesmo para Elvis Presley e alguns de seus produtores! Mas para mim, ela foi, é e será um tipo de tesouro composicional. Uma daquelas obras de arte que beiram a perfeição a nossos ouvidos, e que ademais marcou para sempre minha vida. Talvez a “razão” por trás desta iconolatria musical esteja relacionada a episódios de forte conteúdo emocional vivenciado e viciado; a contextos traumatizantes, marcantes como tatuagens. A situações pseudo-reais e/ou semi-mágicas proporcionadas pelo desmesurado consumo de estupefacientes; pelas amizades seladas a sangue; por amores da juventude perdidos para sempre; e mesmo à despedidas eternas de amigos que se foram...,overdrogados, matados, morridos e auto-exterminados. Enfim, talvez a iconolatria esteja simplesmente atrelada a visões de mundo que direcionaram grande parte de meu roteiro passado e de meu porvir futuro..., caso ainda exista algo a aguardar do satírico e maquiavélico destino.
Esta música certamente significou ainda mais que isto para mim. Mas são sentimentos, lembranças, representações e imaginários que, se forçados à exprimir-se, se tornarão fantasias, e faço aqui um esforço em me ater ao que considero episódios e pessoas verídicas, ao menos da minha dopada perspectiva de então; e também de narrar-lhes sem excessos literários, pois esta é uma arte da qual sou destituído de dons. O texto nada mais é que uma singela historieta. Porém, é mais realista que qualquer “Trainspotting”, com sua estrondosa e elétrica trilha sonora do “Primal Scream”; trabalhos que surgiram como obras artísticas, cinematográfica e musical, no mesmo ano dos eventos aqui narrados, 1996.
Ainda assim, este texto mostrou-se um relato que fica muito aquém do "real" vivenciado, ou do que minha reconfiguração contemporânea mental dos fatos narrados gostaria que tivesse sido o tal "real" ...Whatever! "Nevermind", dizia Kurt Cobain. O que é o "real" afinal?
Talvez como muitos outros fãs, eu sempre quis fazer uma homenagem pessoal a Elvis Presley, astro que despertou em mim muitas alegrias e contentamento existencial através de sua música, de seus filmes e de seu glamour e carisma pessoal.Eu vivi enquanto ele vivia! Algo que gerações mais novas não tiveram a chance. Mas o que pegou mesmo e principalmente foi aquela música, naquela voz.
Elvis cantou em vários estilos: country, gospel, rock, baladas românticas, homenagens ao Dia de Natal, trilhas sonoras de seus filmes, elegias ao Havaí e a Las Vegas! São óbvias as limitações quanto à qualidade de minhas analises musicais, quanto mais em se tratando de um gigante da música popular da estatura de Elvis! Estas limitações impõem sérias restrições à objetividade de minhas inferências. Mas no caso desta redescoberta de Elvis eu prefiro reconhecer minhas inaptidões e ser considerado um admirador desatinado, ou mesmo um musicomâno, do que perder a oportunidade que ora se apresenta de registrar este episódio.
A questão é que neste sábado, 19 de maio de 2012, em torno das 15h00min, a busca de quinze anos pela música “predileta” de um de meus ídolos musicais terminou de forma jubilosa; e esta realidade, assim como a letra da própria música em questão, é subjetiva ao extremo e não tem como ser posta à prova! “Eu” fui o objeto e sujeito deste júbilo, para desconsolo dos críticos, céticos e cientificistas de plantão. Mesmo considerando a mim mesmo um deles! Estranho paradoxo...
Eu estava em companhia de meu primo Renato, escutando a horas trecho por trecho da imensa discografia de Elvis Presley, quando me deparei com um título algo inusitado para as músicas de Elvis. Meu primo é um grande conhecedor da obra deste cantor de alcance vocal inigualável, considerado por setores da crítica especializada como o maior cantor popular do século XX, além de multi-instrumentista, superando até mesmo alguns mestres da música erudita em virtude de seu timbre vocal, da extensão expressiva da mesma, da perfeição rítmica e harmônica deste seu poderoso instrumento natural, a voz.
Bem, encômios à parte, o fato é que me aproveitei da presença deste primo/irmão/amigo para apurar a pesquisa, me aproveitando de seus “insights intuitivos”, sensatos, e conhecimento da matéria. Conduzido com o mínimo de paciência exigido pelo método investigativo historiográfico, eu senti que a duradoura investigação teria mais chances de ser bem sucedida com a contribuição de sua presença. Foi assim que, logo que adentrou em casa buzinando e zoando a senilidade do Fido, meu vira-lata, expliquei a ele no que eu estava envolvido há dias, pedindo desculpas por ter de continuar a tarefa por pelo menos mais um punhado de discos e horas, creditando uma maior chance de sucesso na pesquisa a sua presença. Sua simples companhia passou a ter albores de algo ligeiramente promissor e de bom agouro... Estranho! Uma situação realmente incomum para ambos, céticos e pragmáticos caçadores de musicalidades..., passar um sábado ensolarado a caça de uma música a qual não sabíamos o nome, a letra, o ano de gravação ou em qual das categorias musicais em que Elvis se embrenhou ela se incluía: rockabilly, rock n’ roll, country music, rhythm and blues, folk music, gospel, músicas natalinas, elegias à Las Vegas e ao Havaí, baladas românticas, oferendas musicais a pessoas amadas, trilhas sonoras para filmes hollywoodianos (alguns estrelados por ele), jazz-fusion, reinterpretações de clássicos que causavam admiração até mesmo a seus compositores e intérpretes originais.
O que havia de “concreto” em relação à música perdida, e apenas em minha memória, eram partes da introdução instrumental da musica, que evocava vozes em coral feminino, trombones e trompetes, em tom Lá maior, e um ar de psicodelismo e “space music”, que não eram condizentes com o repertório comum de Elvis. E o repertório de Elvis Presley é enorme, realmente vasto, indo de músicas conhecidas mundialmente, à gravações que nunca saíram “oficialmente” dos estúdios.
Vou iniciar o relato de como conheci e me envolvi tão profundamente a esta música, e os amigos perceberão o quão significativa ela foi e é para mim.
Tudo começou no inverno de 1996. Em julho deste ano Bóris Yeltsin foi eleito Presidente da Rússia, agora principal país da Federação Russa, mas ainda assim um escombro político da antiga e outrora poderosa União Soviética. Em novembro de 1996 Bill Clinton assumiu a presidência dos EUA. Neste ano perdemos um dos melhores compositores que este país já viu e ouviu. Renato Russo morreu de AIDS em outubro; e nos EUA o renomado cientista espacial Carl Sagan foi levado em dezembro pelo câncer. Musicalmente, o Def Leppard e o Metallica tinham lançado, respectivamente, “Slang” e “Load”, com grandes músicas e vendas. O guitarrista “Slash” anunciou sua saída do Guns N’ Roses em outubro deste mesmo ano. Também saiu neste ano o álbum “Roots”, do Sepultura.
Mas a questão é que neste período eu não estava mais ligado no que estava rolando na cena musical, pois estava totalmente vencido pelo vício. Ou melhor, vícios. Tinha-os todos!! Desde tabaco, passando por maconha, “bolas”, coca e crack , até os opiáceos: codeína, alfentanil, dolantina, petidina, morfina, não descartando o Elixir Paregórico e o xarope Eritós..., e qualquer outro “junk” do tipo que me oferecessem..., mandava-os pra dentro sem muita cerinônia. Fazia parte de meus excessos hedonistas habituais no período. O meu controle sobre eles tinha já se invertido em um controle deles sobre mim fazia já um bom tempo. O álcool era o substituto natural destas químicas mais pesadas em épocas de carestia financeira, se é que eu cheguei algum dia a ter o que se pode chamar de finanças..., mas continuemos.
Um grande amigo desta época era o “Punk”, figura muito simpática - com os “chegados”-, e carismática. Um grande devedor e enroladão, além de um fã fanático de Elvis, apesar de ouvir também, o que lhe valeu o apelido: Sex Pistols, Ramones, Ratos de Porão, Camisa de Vênus, Plebe Rude, The Damned, Dead Kennedys, The Clash, The Smiths, Madness, Joelho de Porco, Garotos Podres, etc. Somente coisas singelas. Hardcore era bem vindo, contanto que os skinsheads ficassem “na deles”... Mas não havia muitos deles em Franca, e para uma boa briga de "gangs" era preciso ir a São Paulo, na Galeria Pagé, ou a Belo Horizonte. Uma boa briga não era necessariamente evitada nesta época de inconsequências hoje tidas por absurdas e letais.
Que seja. Adorávamos o “Punk”. Cara independente, louco, "cabeça", brigão, valente e o mais velho do grupo. Morava sozinho em sua casa no Vicente Leporace, onde frequentemente nos reuníamos para ouvir música e usar alguns aditivos psicotrópicos. O “Punk”, em mais um dos paradoxos produzidos por sua estranha mentalidade, não curtia drogas, apenas álcool e tabaco, o que para o resto de nós nem eram consideradas substâncias psicotrópicas, ou “drogas”. Em uma noite bem animada levamos fitas cassete para o “Punk” gravar algumas seleções do Elvis de sua enorme coleção, que era seu tesouro. Mais tarde compreendemos porque gravava tão caridosamente suas raridades...; simplesmente para não ter de emprestar!! Uma tática bem conhecida, ainda utilizada hoje em dia. Para nós, e por nós quero dizer eu, meus primos, amigos, bicões, junkheads, fumeiros, bebuns, drogueiros, meninas sem rumo, músicos, perdidões e outros de nossa laia, aquilo era tudo era fantástico, psicodélico e arriscado como escalar o Matterhorn chapados e sem "guias"!!
Nesta memorável ocasião, “Punk” gravou para mim uma seleção de músicas do Elvis realmente incomum. Eu não conhecia nenhuma delas, ou apenas uma ou duas. O resto me era material desconhecido. Foram duas fitas K7 completas. Apaixonei-me de imediato pelas músicas, e passei a ter orgulho e ciúmes de minhas adoradas fitas! Os nomes das músicas não foram anotados, de modo que aprendi a cantá-las e gostar delas do jeito que eram: despidas de todo o aparato comercial que envolve as músicas “vendidas” em lojas especializadas: discos, fitas e hoje CDs com capas, selos e encartes explicativos. As referências começaram a se diluir ainda mais uns dois anos depois, quando “Punk” se casou, e a turma começou a se dispersar.
Em 1998 fui convidado pelo amigaço “Marcinho” e seu irmão, o saudossíssimo Marcão para uma ranchada com seus primos malucões de Campinas. O rancho já me era conhecido, eu adorava-o. Ficava encravado precariamente em um penhasco que por sua vez pairava sobre o lago artificial da Represa do Estreito. Da varanda do rancho podia-se dar “pontas”, mergulhos de cabeça no lago que deveria ter uns 50 metros de profundidade no local..., além dos galhos de algumas arvores que haviam sido encobertas pelo represamento do rio há uns vinte anos antes daquela época. Na varanda havia uma mesa de snooker que era a alegria da galera. Nestas ocasiões é que se aprende a jogar de vez, ou se desiste de tentar aprender! Não havia fichas, os tacos eram, como a mesa, de qualidade. Passávamos a noite inteira conversando sobre os mais variados e viajantes assuntos, aditivando os motores neuronais, tocando e ouvindo muita música. Nesta ocasião levei minhas fitas do Elvis. Aquelas que o “Punk” havia gravado para mim.
Neste meio tempo eu já havia perdido a esposa, o emprego, a vergonha, a reputação e certos valores e princípios morais mais elevados. Estes amigos eram de uma categoria social mais "instruída" e polida, e estavam ligados em uma vertente musical um pouco diferente da minha. Suas preferências eram Rolling Stones, MPB, Raul Seixas, Beatles, Queen, Barão Vermelho, Belquior, Oswaldo Montenegro, Zé Ramalho entre outras amenidades. Eu ainda preferia Elvis Presley, Pink Floyd, Emerson, Lake and Palmer, Ramones, Nazareth, Jimmi Hendrix, Alice Cooper, Black Flag, Black Sabbath, The Prodigy, Nine Inch Nails, Primal Scream, Buffalo Springfield,Bob Dylan, Dinosaur Jr, Slade, Neil Young, Talking Heads, Cream, Creedence Clearwater Revival, Napalm Death, Guns N' Roses,Sonic Youth, Oasis, ELO, Led Zeppelin e AC/DC, entre outros. Sempre eclético. Mas confluíamos em vários interstícios musicais e cantávamos juntos, em mútua desafinação, com o Marcão no violão, instrumento com o qual tinha uma familiaridade instintiva, para resumir.
Na segunda noite, com o pessoal bem baqueado pela balada da primeira noite, que tinha sido em claro, sentei com minhas fitas do Elvis para afogar as mágoas com goró e mato bravo. Num incidente idiota, coisa de bêbedo trincado, esbarrei nas caixas de fitas, e derrubei uma delas, que estava no alpendre, para dentro do lago!! Fiquei puto a ponto de me xingar de todos os nomes horríveis que já vinha ouvindo a algum tempo de terceiros, una mierda! Minha fita preferida do Elvis, com “aquela” música, estava agora na companhia das lampreias do fundo do lago escuro e frio...
Minha ranchada ficou algo nebulosa depois disso, pois aquela música super-especial, diferente e monumental do Elvis, que me trazia consolo, mas a qual eu não sabia o nome, estava na fita afogada na represa!
Dali em diante tenho procurado por esta música por vários meios. Amigos como o Veloso e o Norival, bons conhecedores de música, não souberam interpretar minha versão balbuciada sem letra, sem harmonia, sem refrão, etc, etc. O velho “Punk” sumiu. Em resumo, a esperança de reencontrar a música só me ocorreu com o advento e incremento da Internet no Brasil.
Mesmo com a internet não é fácil encontrar uma música a partir de tão poucas referencias. Dizem existir programas que reconhecem o padrão de entonação cantado externamente e, gabaritando a harmonia e a melodia, apresentam alternativas possíveis para uma música em busca. Mas isso surgiu no Brasil agora, que eu saiba, 14 anos e meio depois daquele incidente idiota causado pelo meu alcoolismo/toxicomaníaco... That was a shame about me!
Neste sábado entretando, depois de procurar num site de discografias que disponibiliza “trechos” de musicas de seus conteúdos, iniciei uma paciente procura por todos os títulos desconhecidos.
Eu procurei então por títulos que não fossem românticos; que não estivessem relacionados com a fissura de Elvis pelo Havaí e por Las Vegas, ou que não contivessem nomes de musas femininas como “Sylvia”, “Priscilla”, “Caroline”, etc; ou com hinários pentecostais, com o Natal (Christmas), ou com o Rockabilly dos anos 50 de Elvis. A música perdida, eu estava certo, nada tinha a ver com estas vertentes principais de seu repertório, e nem estava entre as mais difundidas pela poderosa industria fonográfica norte-americana. Resolvi então tentar uma última busca nas trilhas musicais de seus filmes hollywoodianos e nos temas country, pois a música em questão tinha tons, timbres e notas que evocavam uma “imensidão espacial” que poderia estar relacionada com as amplidões do oeste norte-americano.
Neste site então iniciei uma paciente procura por todos os títulos desconhecidos para mim. Em dado momento, estava discutindo a tradução de alguns títulos estranhos com meu primo quanto me deparei com o seguinte: “Edge of Reality”. O título estava em uma rara coletânea de discos “side B” de músicas editadas como trilhas sonoras para os próprios filmes de Elvis, possivelmente do ano de 1968. Há alguns vídeos no You Tube cuja música compõe a trilha sonora de um tipo antiquado de “clip”, e que tem o mesmo título em inglês: “Edge of Reality”.
Amigos, não há como descrever o que este simples “achado” significou para mim. Os norte-americanos tem uma expressão que se adéqua bem ao que ocorreu. O achado “Make my Day”, (ganhei meu dia!), diriam. Estou radiante até hoje, três dias depois de redescobrir a música de meus sonhos e pesadelos.
Aqui vai a letra e uma tradução “liberal” dela, feita por mim. Traduções “literais” de músicas distorcem ainda mais o significado que as traduções "liberais", que buscam a sintaxe do conjunto temático da música, e não só a interpretação gramatical ao pé da letra, ignorando as gírias e expressões idiomática do idioma em questão. Se oferecerem uma tradução melhor, agradeço desde já. Abaixo segue o link da música e do clip disponibilizados no You Tube. Procurei pelo melhor som e imagem. Espero que apreciem. Ela é, desde o momento em que a ouvi pelo primeira vez, uma de minhas músicas prediletas...
Um abraço a todos!! Grato pela paciência!
Edge Of Reality.
Elvis Presley
.
I walk along a thin line darling.
Dark shadows follow me.
Here's where life's dream lies disillusioned.
The edge of reality.
Oh I can hear strange voices echo.
Laughing with mockery.
The border line of doom I'm facing, the edge of reality.
On the edge of reality she sits there tormenting me,
the girl with the nameless face.
On the edge of reality where she overpowers me, with fears that I can't explain.
She drove me to the point of madness.
The brink of misery.
If she's not real then I'm condemned to the edge of reality.
On the edge of reality she sits there tormenting me, the girl with the nameless face.
On the edge of reality where she overpowers me, with fears that I can't explain.
She drove me to the point of madness.The brink of misery.
If she’s not real then I’m condemned to..., the edge for reality.
Reality, reality, reality, reality.
Margem da Realidade ( Livre tradução).
Eu ando ao longo de uma linha fina, querida
Sombras escuras me seguem.
Aqui é onde o sonho da vida jaz em desilusão. É a margem da realidade.
Oh, eu posso ouvir vozes estranhas ecoarem.
Rindo com escárnio.
É a fronteira da condenação que estou enfrentando.
A margem da realidade.
Ela esta senta lá, na borda da realidade, me atormentando.
A menina com um rosto sem nome.
No limiar da realidade é onde ela me sobrepuja.
Com temores que não posso explicar.
Ela me levou ao ponto da loucura.
À beira da miséria.
Se ela não é real, então eu estou condenado à margem da realidade.
Ela esta sentada no limiar da realidade, me torturando.
A menina com um rosto sem nome.
Do limiar da realidade, onde ela me domina.
Temo não ser capaz de explicar.
Ela me levou ao ponto da loucura.
À beira da miséria.
Se ela não for real, então eu estou condenado à margem da realidade.
Realidade, realidade, realidade, realidade.
Dúdis Tozinsky Presley Cobain.
http://www.youtube.com/watch?v=fy4_FmqXlC4&feature=results_video&playnext=1&list=PL55B76313CB64B497
terça-feira, 1 de maio de 2012
LEVANTADO DO CHÃO
Gerações da família Mau-Tempo são ceifadas pelo latifúndio. A vida sendo consumida nas searas do Alentejo é apenas o microcosmo da estrutura fundiária de Portugal, tão dramaticamente pintada por José Saramago em seu “Levantado do Chão”. As vidas se passam e parecem não passar, como em um déjà vu, Domingos Mau-Tempo, João Mau-Tempo, Antônio Mau-Tempo...Um personagem sucede o outro, permanecendo a mesma desgraçada existência daqueles que tem por único horizonte um pedaço de pão para o dia seguinte.
Começam e terminam guerras, finda a monarquia, a república de Salazar abre suas asas de corvo sobre Portugal, tudo muda, mas não muda. Permanecem os Mau-Tempo, e tantos milhares de outros como eles, existindo apenas com o único fim lubrificarem a máquina construída por Deus, desde o início dos tempos, e diria Saramago, dos Maus-Tempos. Assim diz o padre Agamedes, confortando os pobres desgraçados com as dádivas d’além túmulo. Lamberto, Gualberto, Adalberto e tantos outros “Berto”, representam uma das extremidades da “Santíssima Trindade”, formada também pela Igreja e pela Guarda, que conforta de outras formas, um tanto quanto doloridas. O Latifúndio, tal qual uma entidade viva, nutrindo-se do sangue e suor daqueles que vieram ao mundo tão somente para isso, excreta apenas as formas cadavéricas e sem vida, já que essa nas searas ficou.
Estes homens e estas mulheres nasceram para trabalhar, são gado inteiro ou gado rachado, saem ou tiram-nos das barrigas das mães, põem-nos a crescer de qualquer maneira, tanto faz, preciso é que venham a ter força e destreza de mãos, mesmo que para um gesto só, que importância tem se em poucos anos ficarem pesados e hirtos, são cepos ambulantes que quando chegam ao trabalho a si próprios se sacodem e da rigidez do corpo fazem sair dois braços e duas pernas que vão e vêm, por aqui se vê a que ponto chegaram as bondades e competência do Criador, obrando tão perfeitos instrumentos de cava e ceifa, de monda e serventia geral. (José Saramago)
A escrita nada convencional de Saramago, e por vezes até um pouco árida ao leitor pouco familiarizado, transforma-se ao longo dos capítulos. Os personagens, antes “meros repetidores passivos e submissos de discursos alheios”, assumem as rédeas da narrativa, tal qual o fazem com suas próprias existências. Já não são mais simples objetos descritos pelo narrador, ao contrário, se descrevem, assumem as responsabilidades por suas ações. Após décadas de luta, que culminam na Revolução dos Cravos de 1974, os camponeses do Alentejo marcham para o Latifúndio, não mais para servirem Adalberto ou Gualberto, mas agora para serem senhores de si mesmos.
Como uma força da natureza os camponeses marcham. Não há mais “Senhor Padre Agamedes” ou Guarda que os detenham. Os mortos se levantam da terra que antes não lhes pertencia e qual numa procissão, mãos dadas aos seus camaradas, levantam-se do chão para o nascer de um novo dia.
“Levantado do Chão” fala de trabalhadores. Aprendemos um pouco, isso e o resto, o próprio orgulho também, com aqueles que do chão se levantaram e a ele não tornam, porque do chão só devemos querer o alimento e aceitar a sepultura, nunca a resignação. (José Saramago).
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Epitáfio em homenagem ao Srº Lélio:
quarta-feira, 18 de abril de 2012
PRIMEIRO CONCURSO CULTURAL "BANQUINHO DO XADREZ - PRÊMIO O BIGODE DE OURO
Todos os frequentadores do querido e imundo "Banquinho do Xadrez" perceberam a decadência de Mauricinho Karamazov. Realmente não é mais o mesmo. De uma das principais potências da praça, nosso bom e velho bigode (mais velho que bom) se transformou em uma espécie de Guarani, ou seja, uma quarta ou quinta força nos tabuleiros. Até o adolescente Tiaguinho vem desbancando a velha Capivara.
Inclusive, a clássica risadinha irritante está se transformando em uma decadente tosse, fazendo com que ficasse conhecido, nos ultimos tempos, por Mauricinho - o tussígeno.
Apesar disso, reconhecendo a importância dessa lenda-viva para o Banquinho, nosso blog vem a publico prestar uma merecida e carinhosa homenagem ao amigo decadente.
Estão abertas as inscrições para o 1 CONCURSO CULTURAL DO BANQUINHO DO XADREZ.
Complete a frase: "O MAURICINHO NÃO É MAIS AQUELE...."
As frases mais criativas serão premiadas:
1 lugar: livro "Como vencer finais de peões", de Saimov Kasparento (obra autografada).
2 lugar: CD "Dud's Tozinsky In Concert" - Live Banquinho do Xadrez. Os maiores sucessos do Nirvana na inconfundível voz do Sinatra dos trópicos.
3 lugar: livro "Tardes estressantes", de Rafinha Bata Branca. Um contundente e comovente relato das peripécias e diligências do nosso Oficial de (in)Justiça.
4 lugar: livro "Xadrez Relâmpago", de Achilles Abreu e Pedrinho Tortoise.
5 lugar: livro "Pare de beber em 5 lições", de Evair Racional.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
E AGORA JOSÉ?
E de repente, não mais que de repente, a Península Ibérica separa-se do continente europeu, transformando-se em uma imensa “Jangada de Pedra”. A morte para de exercer suas costumeiras atividades, deixando incomodados os capitalistas do ramo defuntístico e aflitos os entes que, vendo seus velhos não morrerem, anseiam pelo fim das “Intermitências da Morte”. Uma epidemia de “Cegueira” culmina com respeitáveis senhores cedendo o monopólio da vagina de suas esposas a terceiros, tudo em nome do pão de cada dia. Maria Madalena tem sua noite de amor com um esfarrapado homem de Nazaré, contrapondo aos sagrados dogmas o “Evangelho Segundo Jesus Cristo”. A família Mau-Tempo vê suas gerações serem consumidas pelo latifúndio em uma autoritária Portugal.
E agora José morreu...
Romancista, socialista, mordaz crítico social, e porque não filosofo? José Saramago foi antes de tudo um homem profundamente sensível frente às questões sociais de seu tempo. Fez de seus romances sua arma política e o fez com uma sensibilidade, graciosidade e profundidade inconfundíveis. Sua refinada ironia, sagaz percepção e lucidez analítica, forjaram uma obra literária de inquestionável excelência, que combina os talentos estilísticos mais caros aos herdeiros de Camões com uma intensa paixão pelas causas sociais.
Nascido em 1922, José Saramago passou pelo século como uma cometa em noite escura, iluminando e deixando atrás de si a marca indelével de sua passagem. Mergulhar nas intensas e por vezes áridas páginas de sua obra, por vezes é como fazer uma viagem à uma Portugal desconhecida de nós brasileiros, e por outras, parece com um “descer às profundezas da alma humana”, onde habitam nossos desejos, instintos e receios mais inconfessáveis.
E morreu o tal José...
terça-feira, 3 de abril de 2012
MAURICÍN KARAMAZOV VS DUD´S COBAIN SINATRA " - Houston!! - We have a trouble...!!"
Terça-feira, 03/04/2012. Um relato imparcial/esculachado dos eventos desta noite. "-Houston!! -We have a trouble...!"
A tarde deste
dia se transmutou gradualmente em uma noite fria e ventosa, o que sempre
reforça a sensação de frio das noites francanas. As frias noites de Franca "do Imperador (!??!)" são
proverbiais. Há uma lenda que diz que os tupis nativos da região já se
queixavam com os pioneiros e tropeiros analfabetos, cachaceiros, sujos, ambiciosos e inescrupulosos, da "fria
escuridão" do Sertão do Capim Mimoso, atual Planalto Francano, assim que chegava ao término o verão. Sabiam estes inocentes príncipes do mato que estavam eles a mais de mil metros de altura acima do nível do mar? Que estavam "atrasados" em mais de mil anos de desenvolvimento técnico em relação aos branquelos barbudos que os submetiam? Provavelmente não. Mas por outro lado sabemos bem a solução que os nobilíssimos pioneiros deram ao problema do
indígena desarmado e friorento: a eliminação covarde da etnia inteira no noroeste do estado...
Bem, para não "aquilizar" o caso, e encurtando a narrativa,
o antigo Pouso dos Bagres prosperou, em termos, repito, "em termos", dando origem a uma cidade chamada Franca das Três Colinas, a Franca do "Imperador Tupiniquim", conhecida atualmente como a "capital
brasileira do calçado", ainda que este título seja contestado com justa razão pela gaúcha
Novo Hamburgo...
Que seja! Grande coisa..., "big deal" diriam os Yankees. Temos o "Magazine Luiza", os troféus empoeirados do basquete e o relógio do sol para nos orgulharmos, não? Isso sem contar nossa mais importante instituição: o Banquinho do Xadrez do calçadão da Marechal Deodoro! Uma controvérsia insípida com os gaúchos só nos afastará mais de nossa meta, discutir uma simples partida de xadrez.
Astronômica e antropocentricamente mais importante que isto é o fato de que a cidade hoje é mais
conhecida pelas enormes "capivaras" bípedes/fumegantes que rondam o calçadão em torno de seus
tabuleiros de xadrez; é mais importante o fato de que o Thiaguím Guitarman agora é um cara emancipado; de que a ausência do Xandão não foi questionada; de que o Ivair Racional Superior estava sóbrio e comportado esta noite; de que nosso querido Celsius Kindervox não está no Nirvana, significando que ainda se encontra entre nós, os desiluminados; de que o Pedrinho "osso duro" continua a desenvolver seu xadrez independentemente de nossa orientação, para seu próprio bem; de que o Rafa "Little Bailiff" esta desencalhado e menos carente afetivamente, o que não o desimpede de suas diligências noturnas (à serviço, diz-se); de que o amigo Ebola se deu conta à tempo de que existe um dispositivo moderno chamado "balança", e que este pode o ajudar a controlar sua expansão horizontal; de que o "Japa" não estava de ressaca e nem se embebedando; de que o Klau continua em liberdade; de que o "Seu" Lander continua nos entretendo com seus aportes eruditos em pleno entretenimento enxadrístico; de que o Profº Aquiles não culpou explicitamente a cantoria punk-rock/melodiosa-odiosa de Dúdis pelos seus mal-escolhidos movimentos intra-tabuleiro; de que há notícias de que nosso "Fundador Todo Foderoso", Profº Maurilão Karamazov esta vivo e em atividade; de que o nosso co-fundador Bibí Palhacín Killer continua buscando a hegemonia enxadrística entre as capivaras com suas armadilhas matutas intra-tabuleiro; e finalmente de que o Profº Saymov, prevendo e torcendo por uma derrota humilhante de Mister Maurício Karamazov Tussígeno, lembrou-se de trazer consigo o artefato captador de instantâneos e raptor de almas, a câmera fotográfica.
O resto, "todo" o resto - desde os extintos dinossauros e bagres de nossos córregos, passando pelos calçados caros e mal-acabados; pelas carteiras de couro falso que descosturam vendidas por "amigos" à "amigos"; pelos pedintes viciados que se sentem atraídos e à vontade entre a capivarada reunida e ruidosa; ou
ainda pelo massacre matreiro dos indígenas pelos bandeirantes (diga-se: que destruíram as evidências e registros dos extermínios coletados pelos jesuítas, que supostamente poderiam servir para uma tardia, pobre e, admitamos, mesquinha reparação social para os descendentes tupis-guaranis em virtude das atrocidades sofridas por seus antepassados..., episódio que, em si, nada tem a ver com o xadrez propriamente dito[?]...), - é apenas parte da história local, inclusa esta na embaraçosa e sangrenta história da herança brasileira.
As "vozes do além" que se manifestam durante as cruéis partidas disputadas no calçadão bem poderiam ecoar o lamento destes nossos ancestrais nativos, reivindicando o que era seu por tradição e pré-histórica ocupação..., mas devo me concentrar e parar de "aquilizar" o comentário da partida, da qual, aliás, até agora nada foi dito...!!
Pois então, para "desaquilizar" voltarei já-já (15' aquilianos, no máximo!) à partida que deixou Mister Maurício Karamazov tão cabisbaixo e tussígeno; deixando tão exultantes as sinistras e sarcásticas "vozes palpiteiras do além"."- Pare de aquilizar porra!!".
Pois bem, a abertura das brancas, conduzidas por Dúdis Cobain, que estava mais
cantarolante e chato que de costume, foi a já típica P4D, seguida pela defesa
não-ortodoxa, semi-suicida e desaconselhável inventada pelo próprio teórico enxadrístico Srº M.
Karamazov, o tussígeno. Ele responde à P4D com P3CR, preparando o fianqueto do
bispo branco, sempre com a má intenção de atacar o P4R que costumeiramente é o
segundo lance de Dúdis, o amável barítono irritante. O que aconteceu desta vez, para
não aquilizar ainda mais o kafkiano relato, foi que
Tozinsky Cobain resolveu tentar "estabilizar" o jogo na ala de sua
Dama, e obteve sucesso em seu intuito. A dama de Mister Karamazov fez apenas um
infeliz lance que a colocou na casa 2BD, ali permanecendo como se fosse uma estátua de sal, petrificada
pelo medo, como a esposa de Ló ao ousar contemplar a furiosa destruição com fogo e enxofre caídos do "céu"(??) sobre Sodoma e Gomorra, lançados das alturas pelo misericordioso YHWH (Iavé). Então Dúdis, o menestrel do punk-rock desafinado, decidiu iniciar um ataque
no flanco do rei adversário, percebendo que Mr Karamazov Tussígeno não sabia se
atacava ou defendia. Sinatra Cobain, o artista menosprezado, iniciou então um
avanço de peões que desestabilizou o "emocional"
e o "racional" de
Karamazov Tussígeno, que acabou por desperdiçar ainda mais tempo importante, já "aquilizado" desde o início, movendo seu cavalo
inexpressivamente três vezes.
Bom, para não aquilizar
até o fim o comentário, o fato é que quando Tussígeno Karamazov deu por sí, Tozinsky (o
sósia latino, sofrível, da síntese de Kurt Cobain e Frank Sinatra) , já tinha firmado um
peão em 6BR protegido por outro em 5R. A alternativa que evitava o mate - uma vez que Tozinsky, o Cavaleiro dos Buquês descartados, posicionou sua rainha em 3R, ameaçando
entrar pela diagonal em 6TR - perdia material decisivo, uma torre ou mais. A
paralisia estupefata de Karamazov o impediu de encontrar qualquer solução para
evitar o mate iminente, preferindo este verdadeiro gentleman encerrar de forma cortês a partida deitando
o rei, tossindo bastante, e apertando a mão calejada, disforme e cheia de bactérias de Dúdis
Tozinsky, não sem antes pedir para que a partida não fosse postada no Blog,
pedido este que foi peremptoriamente negado devido a importante lição que a mesma
contém aos incautos de plantão, qual seja, "nunca,
mas nunca mesmo" deixe sua Dama fora de foco, pode ser fatal no xadrez
e causar terríveis dores-de-cotovelo na vida extra-tabuleiro, se é que para
Karamazov Tussígeno existe tal vida..., ou se tal vida é Vida... As implicações desta visão de mundo são por demais
interessantes para serem debatidas aqui, neste breve relato, merecendo um ensaio à parte..., mas ora-bolas, chega de "aquilizar".
Devo enfatizar a presença e o testemunho ocular desta destrinchante partida pela Vossa Reverendíssima pessoa do "Sumo Sacerdote Pontifical" dos capivaras francanos, Mister Manoel Sírio-Cearense, imigrante, doutor²(doutor ao quadrado - médico e advogado), engenheiro, físico, casuísta, bardo, voluntário de guerra, piadista-humorista, cientista espacial, ficcionista consumado, escritor de renome e eminência parda em vários círculos de poder locais, regionais, nacionais, internacionais e cósmicos. "- Ave-Hail Dom Manoel!!".
O candidato a futuro prefeito da cidade também se fez presente entre os mal-cheirosos capivaras - especialmente o Dúdis - contribuindo para o "miasma insalubre" local com seus odores específicos: Srº Baixinho Pé de Cana. Obrigado à Vossa Excelência pela encantadora e ao mesmo tempo deprimente e espoliante presença; e obrigado por fazer dos roedores muquiranas seres mais generosos através de suas desinteressadas "doações" de campanha..., parte das quais se converterá inevitavelmente em álcool etílico, a mais eficaz das drogas causadoras e curadoras do terrível delirium tremens dentre as existentes no mercado, no branco e no negro. Dúdis Tozinsky, o inveterado em abstinência forçada que o diga... Fui! Good riddance me!
Abraço aos irmãos
capivaras do calçadão francano.
Dúdis Tozinsky
Cobain Sinatra Bezerra Pavarotti Belchior, o canalha despretencioso.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
O QUE O MAURICINHO ESTÁ FAZENDO???
O DIBX (Departamento de Imagem do Banquinho do Xadrez) recebeu da CCCBX (Comissão de Controle Comportamental do Banquinho do Xadrez) essa curiosa imagem de Mauricinho Karamazov. O que os amigos acham que ele estava fazendo?
a) Orando com a face voltada para Meca implorando pela ressurreição do bispo preto.
b) Procurando o bispo preto.
c) Fazendo um ritual para ivocar o espírito de "Pai Alê-Kine de Ogum", mestre enxadrista africano.
d) O que ele estava fazendo é censurado e só pode ser dito em um blog para maiores de 18 anos.
e) Batendo a cabeça no banquinho após perder para o Achilles.
f ) Não aguentou a diarréia após comer um super macarrão do chinês.
g) Tinha acabado de comprar uma carteira do Ivair e tava procurando o zíper que estragou na hora.
h) Teve uma cefaléia após escutar os hits do Nirvana cantados por Dud's Cobain e Ivair Mercury.
Saimov
Assinar:
Postagens (Atom)




































