segunda-feira, 29 de outubro de 2012
EVENTO COTIDIANO
Neste final de semana algo inusitado ocorreu comigo em uma das minhas diligências. Fui chamado às pressas pelo Diretor do cartório em que trabalho para "tapar um buraco" deixado por outra oficiala de justiça que simplesmente desapareceu no dia de seu plantão judicial. Tratava-se o caso de uma cautelar de separação de corpos. O "burro" aqui acabou atendendo o telefone e terminou o sabadão dando uma de exorcista do TJ, porque tive que tirar de dentro de casa uma assombração que gosta de bater em mulheres. Pois bem, de posse do mandado, me dirigi ao endereço indicado a fim de exorci...ops!, cumprir a medida cautelar. Chegando ao local, fui recebido justamente pelo réu, que naquela ocasião me tratou muito bem, inclusive, ofereceu até cafezinho! Com muita educação e respeito, disse a ele o teor do mandado, informando-o de todas as suas consequências. O réu não se assustou, pelo contrário, até deu risadas porque disse que sua ex-amásia já não morava naquele local. Disse ainda que já estava até de namorada nova!!! Pedi a ele que informasse o novo endereço da autora para que eu a encontrasse, o que prontamente foi atendido. Assim, me dirigi ao novo endereço da autora acreditando que faria tão somente a intimação da data da audiência e pronto, mais um mandadinho pro balaio!!! Foi quando ela manifestou a mim o desejo de regressar ao seu antigo lar. Pois bem, voltei juntamente com ela ao endereço do réu e, estando lá, informei a ele da necessidade agora de se retirar do lar imediatamente. Antes, contudo, tratei de amenizar seu psicológico, dizendo que aquela medida era ordem emanada do juiz e que eu não tinha qualquer interesse em vê-lo desinstalado de sua moradia. O rapaz recebeu a notícia de cabeça baixa e face estanque, sem manifestar qualquer emoção. Foi quando, de súbito, disse que não sairia do local e pronto. Disse a ele então que eu seria obrigado a chamar a polícia e que tal atitude lhe causaria sérios problemas futuros...Diante do que falei, ele simplesmente disse então que antes de sair iria quebrar a casa toda e lançou mão de um pedaço de madeira. Naquele momento, achei que o cara iria me partir no meio, mas ele entrou na casa e pôs-se a destruí-la em fúria incontrolável. Comecei a ligar pra polícia pelo número 190, mas fantasticamente eles não atendiam o telefone. Enquanto isso, o cara destruía a casa da autora e gritava todo tipo de injúrias lá de dentro. A situação era surreal, o cara quebrando tudo, a mulher chorando desesperada do meu lado e a polícia não atendia o telefone...Eu já tinha saído de perto e, inclusive, até mudei o meu carro de lugar rsrs! Foi quando o cara simplesmente cansou de praticar basebol com os vasos de sua ex-amásia e resolveu pegar seus parcos bens: uma TV velha, e pelo que vi, 2 pares de meia, uma calça surrada e 2 pares de sapato. Ao sair, após xingar seu desafeto por quase 5 minutos ininterruptos, olhou para mim e disse que não era nada comigo, pediu até desculpas. E saiu com seu carro como se nada tivesse acontecido...Complicado, não acham? Depois dessa, e com um calor de 35 graus, só mesmo tomando uma gelada pra esfriar o sangue...
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
A saga da caveira.
Numas de
achar que poderia o prazeroso ao agradável somar, o paulistano resolveu no mar
se aventurar. Atracado no porto de Santos estava um enorme cargueiro, junto a
outras embarcações, que em breve seu compartimento de cargas na China iria
abarrotar, com produtos pirateados, “dumpings” e falsificações.
O gaiato
aventureiro esperou a noite baixar e enquanto a tripulação chinesa se esbaldava
na zona portuária, ele atravessou a ponte de acesso e entre os contêineres foi
se ocultar. Satisfeito ele pensou: “-Quando chegarmos ao Havaí dou um jeito de
cair fora! Vou viver de pernas pro ar...”.
E sentiu que seus dias de motoboy em Sampa eram agora coisa de outrora!
O navio
já estava há dias em alto mar quando um marujo de Shangai avistou o penetra
lazarento. Ele foi pego no convés, ao relento, enquanto vomitava no mar lá de
cima da amurada, todo encardido e fedorento. Seu azar foi que o navio pertencia
a uma facção da “Tríade”, a máfia chinesa, que se autodenominava “Bandana
Suarenta”. A “saga da caveira” teve então início, assim, bem confusa e nojenta.
Os
chineses, “comunistas de mercado”, acharam que o brazuca era um espião norte-americano
disfarçado de “chicano”, sacaram o golpe
que o suposto “yankee” queria aplicar e amarraram o malandro, já em lágrimas,
com correntes e cadeado. A orgia de porradas continuava enquanto o marujo
maoísta atava o brasileiro bicão à uma ancora pesadona da embarcação; não sem
que antes ele sofresse brutalidades ao estilo da sádica máfia do Cantão...
Uma
sardinha curiosa, ainda fora da latinha, viu toda a patifaria, mas nada podia
fazer pelo infeliz intruso brasileiro que tinha entrado numa fria. Além do
mais, já estava calejada de tanta pirataria, coitadinha, e sabia que seu
destino também não era dos melhores: iria terminar sua existência exposta numa
vitrine de peixaria.
Antes que o capitão da nau gritasse em
mandarim um “-Não façam isso seus cornos!!”, lá da torre de comando, o paulista
vacilão já tinha virado isca de peixe marinho e petisco de tubarão. E a mutação
do moço não parou por ai não. Enquanto a ancora baixava nas profundezas da
Fossa das Marianas, a 11 mil metros de profundidade, o molecote ia se
desfigurando e perdendo os caracteres de sua identidade; maior azarão.
A
pressão estrambólica, a fria escuridão e as bizarras criaturas do leito
oceânico também não fizeram bem ao corpo do imaturo jovem da Mooca não... Antes
tivesse, ele pensou: “-(...)se conformado aos rigores de seu mundo continental,
construído nos moldes mentais de uma elite burgo-europeizada e pós-oligárquica
(como dizia seu avô ítalo-anarquista!), a morrer longe de casa, no fundo da
água salgada”.
Alguns
meses mais tarde, seu esqueleto recoberto de cracas foi içado numa rede de
arrastão junto a ostras, enguias, linguados, barracudas, caranguejos e muito
salmão. Num ensanguentado barco pesqueiro japonês, seus restos foram
devidamente separados do que tinha valor comercial ou era saboroso; afinal era
todo o trabalho de um mês e o mar ultimamente não andava muito piscoso.
“-Deve
ter sido um jovem mestiço sul-americano”, declarou o perito forense edokko ao
policial encarregado do caso. “-A causa mortis foi afogamento, mas sofreu
tortura e espancamento antes de borbulhar seu último lamento!”, completou o
assistente de necropsia entediado, já pensando na hora do saquê com a namorada
gueixa. “-Ofereçam-no aos brasileiros, através do consulado”, disse, aproveitando a deixa, um
intrometido nissei emigrado, da limpeza do chão encarregado. “-Digam que pode
ser a ossada de um político perseguido, ou mesmo de um torturador que acabou
como arquivo morto; se eu não me engano, por lá estão oferecendo anistia geral,
tanto pra uns quanto pra outros!”
Diante
das observações perspicazes do 'expert' em Brasil, e da inconclusão adicional,o responsável pelo caso
anuiu. Iriam encaixotar a ossada e remetê-la ao “povo varonil”. O espirito do
coitado suspirou aliviado: "- Pelo menos não vou parar no lixão da
capital..."; o qual, na verdade ficava em outra nação, lugar onde se vende
o quintal, o subsolo e o espaço aéreo por um pouco de ração, como dizia
Raulzito...
A
caveira sorridente voltou voando para o sul do norte-americanizado continente,
e ao sobrevoar os Andes sentiu um 'arrepio na espinha' quando se lembrou da
famosa história do acidente aéreo, quando corpos congelados foram
canibalizados. “-Que triste sina a dos devorados”, pensou, se esquecendo de que
sua própria sorte não tinha sido menos dramática: “-Sou brasileiro nato, nunca
perco o otimismo!”, pensou o espectro-esqueleto num arroubo de ufanismo atrasado. Nosso tupiniquim não logrou êxito em sua psicológica tática...
O humor negro da caveira desnorteada logo se tornou azedo, assim que percebeu a
confusão que os orientais fizeram mais cedo. Na hora de embarcar o esquife improvisado em caixa de papelão, colocaram a 'Republica Argentina' como
destinatária do tumbão. Os japoneses, na correria pós- tsunami, confundiram a
ditadura que poderia ter feito o “serviço”, e desovaram a ossada na terra de
Gardel e Galtieri! Uma prova de que no mundo inteiro existe trapalhada e
embromação, até mesmo no Japão...
Pousaram
então com a carcaça e sua alma penada nas margens do Rio da Prata. Buenos Aires estava em festa! A energia imaterial logo sacou: "-Víxêêê..., isso não presta...!". Foda, ela chegou bem na hora em que rolava, entre as respectivas seleções do Brasil e Argentina, uma daquelas partidas de futebol que todo brasileira detestava; 3X0 pros "hermanos"... O fantasma da caveira amaldiçoou o Brasil, o
mar, a sardinha, os estrangeiros e a China.
Logo depois, num hangar do aeroporto
portenho, a caveira desencaixotada sorria desdentada e mau-humorada para os gringos doidões,
pensando desconsolada com seus botões: "- Eu mereço...; que sorte de merda eu tenho...”.
Dúdis.
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Da Física Moderna.
Da
Física Moderna.
Acelerador de partículas CERN 2. Suíça.
Acelerador de partículas CERN 2. Suíça.
Algo pode,
simultaneamente, “ser” e “não ser”? Pode, contanto que se elimine o critério
convencional de “tempo” absoluto, pois este foi criado para medir a duração das coisas
no fluxo eterno do suceder; e para se identificar o que “é” e “não é”,
precisamos, ao exemplo do Bóson de Higgs, reter a essência de seu significado no
exato momento antes dele “sumir”, ou precisamente depois dele “aparecer”. O que "é" no instante seguinte "foi", em nenhum momento conseguindo, de fato, se estabelecer.
Evento Bóson de Higgs, imagem computadorizada.
Então este algo
pode, em concomitância, “estar” e “não estar”? Pode, com a condição de que não
se tome como perspectiva para sua determinação apenas um único lugar em um espaço absoluto.
Compreender o paradoxo exige empenho, e predisposição para as contra-alegações convincentemente
refutar; além de múltiplos observadores para fenômeno tão volátil captar. Nada existe de imóvel no espaço relativo; pois ele, assim como o tempo, perdeu seu antigo e estável estatuto.
Sub-partículas
Mas se o “tempo” é
pura convenção humana, o que se mede “há tempos” nos relógios e metrônomos
neste universo fenomenal? O ritmo, o
compasso e a cadência musical dos objetos em sua dança etérea no palco infinito
do teatro celestial. Uma melhor percepção se adquire quando se abandona a ideia
do tempo como uma corrente linear e fluvial.
Bicho tempo.
E a “velocidade”? Diz
mais a respeito da aceleração ou inércia relativa e vetorial das coisas; ou
sobre nossa impaciência com a imobilidade e morosidade? A reposta surgirá em nosso espelho gradualmente,
enquanto nossa pressa intensifica o desgaste físico e a rápida cascata fluida dos
eventos imprime em nossa face o sinal da idade.
Velocidade supersônica e a condensação de vapor durante o arranque.
O que pensar da “luz”,
em conclusão? É simplesmente o foco de claridade diária generosamente fornecida
pelo nosso Sol? Ou é este excêntrico emaranhado teórico do “quantum de fótons”,
tanto partícula quanto onda, que o físico Einstein sugeriu em prol e
substituição da pendente ideia da eletromagnética radiação? O tempo enfim nos dirá!
Claro está, afinal, que o “certo e o errado” não significam o mesmo que o “bem
e o mal”.
Luz solar sobre nuvens.
Dúdis
Tozinsky Cobain.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Vencedores e perdedores do Câmbrico: anatomia e anomalia animal. Paródia Paleozóica das Olimpíadas de Londres. Agosto de 2012.
Acima, Colúmbia
Britânica, Montanhas Rochosas Canadenses. Xisto de Burgess.
Bem antes dos Tiranossauros se tornarem os seres dominantes na paisagem da fauna terrestre jurássica, vivendo no topo da cadeia alimentar, existiu no planeta uma fauna fascinante, exótica e diversificada. Ela é chamada hoje de “fauna câmbrica” pelos paleontologistas. Esta maravilha preservada em fóssil surgiu em um evento conhecido como “explosão câmbrica” (a cerca de 570milhões de anos atrás), o que em termos mais simples significa que a evolução operou intensamente na anatomia e funcionalidade dos animais, fitoplânctons e calcimicróbios[1] então existentes, produzindo repentinamente animais de formato, hábitos alimentares e reprodutivos radicalmente estranhos para os padrões de hoje.
É claro que eles não surgiram espontaneamente. Havia, presume-se, uma fauna prévia que serviu de ponto de partida para o surpreendente “boom” câmbrico. Contudo, como admitiu o próprio Darwin, as rochas sedimentares que porventura possam abrigar os fósseis destes antiquíssimos animais, preceptores das espécies câmbricas, são de difícil localização, podendo muitas delas estar neste momento no fundo dos oceanos. Isto não impede, é claro, que alguns “xistos"[2], ou depósitos de sedimentação contendo estes fósseis possam ser descobertos nas atuais placas continentais a qualquer momento. O estranho é que eles ainda não foram encontrados pela comunidade científica. Este problema gerou certo desconforto teórico à Darwin em seu tempo, e ainda gera expectativas nos geólogos e paleontólogos atuais. De fato, como “provar” a ascendência da fauna câmbrica dentro da teoria evolucionista se não se encontram registros fósseis que sustentem a teorização evolucionária? Estava aberta uma brecha para os defensores da“criação espontânea”!
Abaixo, representação gráfica da fauna câmbrica.
Do mesmo modo que surgiu, em um período relativamente curto em termos geológicos (termos estes que se referem a idade dos afloramentos rochosos terrestres), a fauna câmbrica foi extinta de modo fulminante, restando após a mortandade apenas 4% das espécies anteriormente existentes. Bem antes dos Tiranossauros se tornarem os seres dominantes na paisagem da fauna terrestre jurássica, vivendo no topo da cadeia alimentar, existiu no planeta uma fauna fascinante, exótica e diversificada. Ela é chamada hoje de “fauna câmbrica” pelos paleontologistas. Esta maravilha preservada em fóssil surgiu em um evento conhecido como “explosão câmbrica” (a cerca de 570milhões de anos atrás), o que em termos mais simples significa que a evolução operou intensamente na anatomia e funcionalidade dos animais, fitoplânctons e calcimicróbios[1] então existentes, produzindo repentinamente animais de formato, hábitos alimentares e reprodutivos radicalmente estranhos para os padrões de hoje.
É claro que eles não surgiram espontaneamente. Havia, presume-se, uma fauna prévia que serviu de ponto de partida para o surpreendente “boom” câmbrico. Contudo, como admitiu o próprio Darwin, as rochas sedimentares que porventura possam abrigar os fósseis destes antiquíssimos animais, preceptores das espécies câmbricas, são de difícil localização, podendo muitas delas estar neste momento no fundo dos oceanos. Isto não impede, é claro, que alguns “xistos"[2], ou depósitos de sedimentação contendo estes fósseis possam ser descobertos nas atuais placas continentais a qualquer momento. O estranho é que eles ainda não foram encontrados pela comunidade científica. Este problema gerou certo desconforto teórico à Darwin em seu tempo, e ainda gera expectativas nos geólogos e paleontólogos atuais. De fato, como “provar” a ascendência da fauna câmbrica dentro da teoria evolucionista se não se encontram registros fósseis que sustentem a teorização evolucionária? Estava aberta uma brecha para os defensores da“criação espontânea”!
Abaixo, representação gráfica da fauna câmbrica.

Os registros fósseis deste período de extrema experimentação, diversidade anatômica e funcional da natureza animal são conhecidos deste o início do século XIX, e seu representante mais conhecido é o muito estudado “trilobita”.
Acima, Trilobita fóssil.
Entretanto, o próprio trilobita é considerado membro de uma espécie de geração mais nova, pois esta surgiu no final da era câmbrica, pouco antes da massiva extinção ocorrida no início do período “ordovícico”(aproximadamente 520 milhões de anos no passado). Os trilobitas foram bem-sucedidos em sua era e seus fósseis são encontrados por quase toda a superfície terrestre, em sua respectiva camada geológica, sinal de que ele prosperou adaptativamente e se difundiu pelos oceanos do planeta de então. Mas antes do surgimento dos trilobitas, estranhos animais dominavam os mares e oceanos. Os animais da fauna câmbrica.
Abaixo, fauna e flora câmbricas.
A jazida contendo este tesouro
paleontológico foi descoberta pelo geólogo norte-americano Charles Doolitle
Walcott em 1909, mas só veio e ser estudada, compreendida e avaliada a partir
da década de 70 do século XX, quando os paleontólogos britânicos Harry
Whittington, Simon Conway Morris e Derek Briggs resolveram abordar com métodos
e aparelhos mais modernos os tesouros fósseis de Walcott, guardados no
Smithsonian Institution, USA, onde Walcott era administrador. O reestudo do
material sob novas condições de análise trouxe a tona perturbadoras
conclusões, conclusões estas que afetaram a própria ortodoxia darwiniana. Foi
como se os famosos “Manuscritos do Mar
Morto” fossem todos liberados para publicação, trazendo à tona informações
sobre a primitiva Igreja Cristã que contradizem a ortodoxia católica
contemporânea. Vejamos alguns dos “alienígenas” aquáticos encontrados
por Walcott nas Montanhas Rochosas Canadenses. Devemos nos lembrar que nesta
era remota a superfície terrestre estava desabitada.
Marella: animal abundante no Xisto de Burgess. Possuía um escudo cefálico com quatro espinhos voltados para trás, cerdas com penugem, patas locomotoras e compridas antenas. Não foram encontrados olhos neste animal. A principio foi relacionado como um antepassado dos trilobitas. Depois da revisão de Whittington, esta hipótese foi descartada. A simples “funcionalidade”, os hábitos alimentares e de locomoção não foram suficientes para estabelecer definitivamente o parentesco. Acabou sendo reclassificado como um filo independente de artrópode. Um filo animal isolado. Mas esta bela espécie não sobreviveu ao extermínio ordovícico-silúrico.
Abaixo, desenho de um exemplar do Marella.
Marella: animal abundante no Xisto de Burgess. Possuía um escudo cefálico com quatro espinhos voltados para trás, cerdas com penugem, patas locomotoras e compridas antenas. Não foram encontrados olhos neste animal. A principio foi relacionado como um antepassado dos trilobitas. Depois da revisão de Whittington, esta hipótese foi descartada. A simples “funcionalidade”, os hábitos alimentares e de locomoção não foram suficientes para estabelecer definitivamente o parentesco. Acabou sendo reclassificado como um filo independente de artrópode. Um filo animal isolado. Mas esta bela espécie não sobreviveu ao extermínio ordovícico-silúrico.
Abaixo, desenho de um exemplar do Marella.
Yohoia: gênero animal comum na jazida fóssil de
Burgess. Possuía um par de olhos e também um par de apêndices preênseis em frente à cabeça,
sinal de que era um predador e/ou necrófago, e não um depositívoro[3] como
o Marella. Nadava e não possuía patas ou membros locomotores, apenas alguns apêndices articulados logo atrás da carapaça. Apesar de semelhante em alguns aspectos aos modernos artrópodes, tinha características que o distinguíam claramente, como a citada carapaça cefálica bivalve, e as pinças dianteiras. Acabou classificado como
outro “filo” à parte. Outra supressa de Burgess. Sucumbiu na grande
extinção do ordovícico.
Abaixo, representação pictórica computadorizada de um Yohoia.
Abaixo, representação pictórica computadorizada de um Yohoia.
Opabinia: animal relativamente raro na jazida fóssil de
Burgess. Pouco maior que um dedo anular adulto. Possuía cinco olhos e uma
“tromba” que terminava em uma pinça dentada. Predador eficiente, o Opabinia
nadava à captura de presas com suas barbatanas laterais e caudais. Sua primeira
representação artística causou um riso de espanto e perplexidade no grupo de
especialistas reunidos em simpósio paleontológico. Era estranho demais..., um quase
alienígena. Hoje é tido como uma das mais interessantes criaturas que já
habitaram o planeta. Foi extinto na Grande Dizimação Silúrica.
Abaixo, o Opabinia.
Abaixo, o Opabinia.
Hallucigenia: um dos mais
curiosos animais do câmbrico. Sua singularidade anatômica é única. Simon Conway
Morris, que estudou o fóssil e também o “batizou”, diz ter escolhido o nome em
virtude de seu aspecto bizarro e onírico.
Em verdade, não se sabe ao certo onde é a frente ou o traseiro do
animal, seu lado de cima ou de baixo... Mesmo os especialistas se atrapalham ao
tentar reconstruir seus hábitos alimentares e de locomoção. A julgar pelas
estruturas funcionais encontradas em alguns animais marinhos de hoje, o
Hallucigenia viveria conforme se observa na imagem abaixo: cego e encravado
por seus espinhos no fundo de pântanos, lagoas e lagunas rasas, movendo-se
muito lentamente já que haviam articulações que ligavam os espinhos ao tronco do
animal. Há uma “cabeça” em um dos lados, ou melhor, um membro cefálico, sem
olhos, antenas ou boca(???). Possuía sete tentáculos relacionados aos sete pares
de pernas-espinhos. Ao final de um dos lados o tronco se afunilava, dando origem
a algo que se supõe ser uma abertura digestiva... Os tentáculos possuíam suas
pontas em formato de pinças, o que pode indicar que serviam para capturar
detritos suspensos nas aguas lodosas que habitava. Em resumo, o animal é tão
esquisito que não se pode descartar a hipótese de que ele era, na verdade, “parte”
de um animal maior... Equívocos taxonômicos semelhantes acontecem nos estudos
paleontológicos, o que corrobora a dificuldade que enfrentam os paleontólogos
ao se defrontarem com animais do período câmbrico. Também foi extinto na Mortandade Silúrica-Ordovícica.
Abaixo, representações do Hallucigenia.
Abaixo, representações do Hallucigenia.
Aysheaia: animal de corpo cilíndrico que possuía dez pares de
membros com os quais de fixava na casca de esponjas e pepinos do mar. Sua boca possuía
um conjunto de "brocas perfuratrizes" por onde se pregava e sugava a seiva das suas plantas e organismos prediletos. Isto o caracteriza como um parasita. Era cego. Não foi
extinto na Grande Dizimação do final do Câmbrico, o que significa que dele
derivaram alguns dos espécimes funcional e anatomicamente semelhantes da
atualidade.
Abaixo, representação computadoriza de um exemplar do Aysheaia.
Abaixo, representação computadoriza de um exemplar do Aysheaia.
Banffia: só recentemente esta espécie foi reexaminada e
classificada pelos paleontólogos. Até então seus fósseis, também advindos do
Xisto Argiloso de Burgess, na Columbia Britânica Canadense, estavam engavetados
no laboratório de Walcott, no Smithsonian Institution de Washington, DC,
Estados Unidos. Possuía corpo mole e espiralado, o que lhe permitia nadar de
forma desengonçada. Sua extremidade cefálica estava encoberta por uma carapaça
mineralizada, de onde surgia a abertura de uma boca semi-circular cercada por apêndices
sensoriais em forma de antenas que se estendiam por baixo do corpo do animal. Não se conhecem olhos nesta estranha espécie.
Abaixo, duas Banffias "vistas" por cima.
Abaixo, duas Banffias "vistas" por cima.
Wiwaxia: pequena criatura oval, achatada e cega, com o
corpo inteiramente recoberto por placas escamosas, semelhantes a unhas, talvez
do mesmo material. Espinhos dorsais eram direcionados para cima, levemente curvados
para trás. Sua superfície ventral era pelada, sem escamas, e à frente do animal
se encontrava o orifício bucal, na verdade um par de mandíbulas com dentes em
forma de ponta de flecha, muito afiados. A julgar pela anatomia, era um
necrófago detritívoro, que recolhia restos orgânicos do fundo das poças, lagos
e mares por onde se arrastava. Suas sete fiadas de espinhos dorsais serviam de
defesa contra predadores; os espinhos eram tão afiados e resistentes que se
conservaram nos fósseis até os dias atuais. Taxonomicamente inclassificável, não
está relacionado a nenhum filo-genealógico conhecido; nem do presente, nem do
passado. Extinto na “Dizimação Silúrica”. Uma singularidade animal.
Abaixo, representação computadorizada e desenho de uma Wiwaxia.
Abaixo, representação computadorizada e desenho de uma Wiwaxia.
Anomalocaris: maior animal do Câmbrico, talvez o maior
predador também. O nome significa “camarão anômalo”, e foi cunhado em um período
pré-Burgess, já que partes do animal haviam sido descobertas em meados do
século XIX. Foi remontado como um quebra-cabeça, por partes, até que finalmente
fósseis completos foram encontrados nas camadas fósseis de Burgess. Possuía
quase 1 metro de comprimento na fase adulta, com dois enormes apêndices em forma de garras
dentadas preênseis que saiam da superfície inferior da carapaça cefálica. Possuía
um par de grandes olhos sobre pedúnculos, e nadava impulsionado por possantes barbatanas
ventrais lateralizadas guiado por "lemes" traseiros. Sua boca circular era repleta de dentes afiados que
seguiam para o interior do tubo digestivo, triturando suas presas em pequenos
fragmentos digeríveis. Nadava, acredita-se, de modo semelhante as nossas raias, ou arraias,
ondulando as barbatanas laterais. Seu escudo cefálico era resistente como uma
rocha. Espécie dizimada no final do período câmbrico durante a Grande Extinção Silúrica.
Abaixo, duas representações do Anomalocaris.
Abaixo, duas representações do Anomalocaris.
Das
espécies citadas acima, apenas o Aysheaia sobreviveu à Grande Extinção
Silúrica. E o intrigante é que este animal parasita pouco tinha de excepcional,
com exceção do fato de ser um parasito vivendo às custas de hospedeiros situados no estrato primário da cadeia
alimentar. Como se alimentava da seiva de vegetais aquáticos de lagunas rasas e da linfa de animais, foi poupado da
dizimação que exterminou quase toda a cadeia alimentar acima dele. Sua situação
“modesta” na ecologia do mundo câmbrico lhe poupou da extinção. Quem apostaria “nele”??
Aysheaia, El Vencedor!
O “acaso” também poupou algumas outras poucas espécies, das quais nossa moderna fauna, inclusive o Homo Sapiens, descende.
Pikaia Gracilens, outra campeã!!
Este elegante animal acima é o "Pikaia Gracilens", e foi batizado por Charles D. Walcott em homenagem ao monte onde seu fóssil foi primeiramente encontrado, o Monte Pika, também nas Montanhas Rochosas Canadenses. O interessante sobre este animal simples?! Ele também sobreviveu à Grande Dizimação Câmbrica-Silúrica. Há duas décadas descobriu-se que este animal é o primeiro "cordado" registrado na fauna terrestre. Os cordados são um filo animal que apresentam a notocorda espinhal, um tubo nervoso dorsal e fendas branquiais, o que significa que ele é o ancestral de "todos" os peixes, anfíbios, répteis, aves e, posteriormente, mamíferos. Se este pequenino nadador do câmbrico não tivesse sobrevivido à Grande Extinção Silúrica, nada do que se conhece hoje sobre este planeta e sua biosfera poderia ser descrito, observado ou analisado por seres terrestres. Não haveria auto-consciência. O Homo Sapiens simplesmente não existiria caso o Pikaia não houvesse sobrevivido e evoluído em direção aos vertebrados...
Qual destino aguarda nossa soberba espécie? Somos os causadores de uma nova onda de dizimação? Já demos ignição ao processo que nos devorará, já que estamos no topo da cadeia alimentar? Nossas tão indulgentemente aclamadas qualidades intelectuais nos salvarão do extermínio? Quem viver verá...! Rsrsrsrsr...
Dúdis Tozinsky Cobain.
Bibliografia:
Darwin, C. A Origem das Espécies.
Martin Claret, São Paulo: 2004.
Dawkins, R. O Gene egoísta. Editora
Itatiaia, Belo Horizonte: 2001.
Dawkins, R. O Relojoeiro Cego. Cia.
das Letras, São Paulo: 2009.
Dawkins, R. A Grande História da
Evolução. Cia. Das Letras, São Paulo: 2009.
Dicionário de Ciências: Biologia e
Geologia. Porto Editora, Portugal:2001.
Gould, S, J. A Vida é Bela. Gradiva.
Portugal: 1995.
Gould, S, J. Viva o Brontossauro.
Cia. das Letras. São Paulo: 1992.
Leakey, R. A Origem da Espécie
Humana. Rocco, Rio de Janeiro: 1997.
Luca Cavalli-Sforza. Genes, Povos e
Línguas. Cia. Das Letras, São Paulo: 2003.
Montagu, A. Homo Sapiens. Guadiana
Publicaciones, Madri: 1970.
Morris, D. O Macaco Nu. Editora
Record, Rio de Janeiro: 1967.
Dawkins, R. A Grande História da Evolução. Cia. Das Letras, São Paulo: 2009.
[3] Os
depositívoros extraem pequenas partículas alimentares do sedimento acumulado no
solo subaquático.
[1]
Micróbios calcificados.
[2] Rochas
sedimentares ou metamórficas formadas e compostas por camadas de sedimentos, em
geral marinhos.
sábado, 21 de julho de 2012
DEMASIADO HUMANOS?
Dud’s Tozinsky consegue quebrar uma castanha com martelo e saborear o fruto em companhia do seu famélico cachorro Fido. E daí? Um chimpanzé da bunda dourada consegue a mesma façanha e além do uso da ferramenta, esse animal “fabrica” sua própria ferramenta, pois ele modifica galhos de árvore para enfiar no cupinzeiro e capturar seu banquete. Saimov consegue empurrar uma torre na cara do rei do Mauricinho. E daí? Um primata não humano consegue encaixar cubos em seus devidos lugares, coisa que Saimov só faz com muita dificuldade. Mauricinho aprendeu em seu meio cultural a sujar o calçadão da praça com os restos do seu cigarro. E daí? Uma população de Bonobos desenvolveu um engenhoso sistema para separar o trigo da areia jogando tudo na água...O que flutua é trigo. Essa prática continuou sendo ensinada dentro dessa população mesmo quando desapareceu a necessidade, tornando-se assim, uma espécie de ritual. Nesse sentido, a partir um conceito mais amplo de cultura, podemos dizer que esses primatas também a possuem, pois essa prática é ensinada dentro do grupo, e não “herdada geneticamente”.
É com base nesses argumentos, claro que expostos de forma mais elegante do que o fiz, que o historiador Felipe Fernández-Armesto questiona os argumentos que até hoje tínhamos como certos para nossa auto-distinção em relação aos outros animais. Claro que existem diferenças óbvias e assim, é impossível confundir nosso amigo Xandão com uma capivara, por exemplo, exceto talvez quando disputam uma partida de xadrez. Porém, para Armesto os humanos não ocupam um lugar especial na evolução, ao contrário, são apenas um dos tantos galhos da árvore evolutiva, uma entre tantas possibilidades que ficaram pelo caminho ou tomaram outro rumo.
Em “Então você pensa que é humano?” o professor Armesto desconstrói boa parte da argumentação que fundamenta os humanos como “essencialmente” diferentes, a parte, das outras espécies. O autor chega mesmo a sugerir que outros primatas deveriam ser classificados no gênero “homo”. Para tanto, Felipe Fernándes-Armesto se fundamente em recentes estudos sobre os primatas, que revelam comportamentos bastante similares aos nossos, como por exemplo, solidariedade, tristeza, capacidade de prever efeitos, certos comportamentos que podem ser enquadrados como culturais, além da habilidade para utilizar e fabricar ferramentas.
Em janeiro de 2003, reportagens na imprensa trouxeram boas notícias para os orangotangos. Segundo a revista Science, eles são “quase humanos”. Alguns deles “usam guardanapos quando comem” e “beijam-se para dar boa noite”. Alguns “usam folhas com luvas enquanto manuseiam vegetação espinhenta” (...). Ainda mais surpreendente, eles desenvolvem uma cultura: como as sociedades humanas, os grupos de orangotangos desenvolvem modos distintos de se comportar uns com os outros. Os seus jogos variam de lugar para lugar. Em Bornéu, brincam derrubando árvores mortas, que cavalgam enquanto caem e abandonam pouco antes do impacto. Esse jogo, entretanto, é desconhecido dos orangotangos de Sumatra. (p. 59)
Além do embasamento científico para questionar nossa noção “tradicional” de humanidade, o professor Armesto, fundamentado em pesquisas arqueológicas, mostra como é sustentável a idéia de que em períodos ou sociedades pré-agrícolas, onde os humanos praticamente não tinham controle sobre a natureza, nossa espécie se percebia como uma entre tantas e nada mais que isso. Fósseis de humanos enterrados ao lado de animais, ou de animais enterrados com o que seriam adornos de reverência, sugeririam uma noção de igualdade entre espécies, ainda mais quando éramos tão frágeis frente às garras, presas e velocidade dos felinos, por exemplo.
Essa percepção dos humanos como pertencentes à mesma “esfera” de outras espécies teria perpassado as sociedades pré-agrícolas, tanto é assim que observamos o culto aos animais ou o antropozoomorfismo em sociedades como a egípcia, por exemplo. O caráter histórico dessa noção que temos de nós mesmo em relação aos outros animais é fundamentado por Felipe Fernández-Armesto de uma forma bastante interessante. Além dos estudos arqueológicos, o historiador traz uma série de documentos mostrando como animais eram julgados com os mesmos critérios que se julgariam os humanos. Gafanhotos acusados de provocarem fome, cães julgados por assassinato na Europa Medieval, enfim, uma série de documentos evidenciariam como essa noção antropocentrista é definida no tempo e no espaço e mesmo quando foi hegemônica, não permaneceu como única.
Em tempos onde nosso pseudo-poder sobre a natureza atinge proporções titânicas; em um período em que temos a capacidade técnica para eliminar boa parte da vida sobre a Terra; em dias que nos comportamos como se todos os recursos naturais e todas as espécies sobre o planeta estivessem aqui com a única finalidade de nos servir...As reflexões propostas pelo professor Armesto se tornam de grande valor. A permanência de nossa civilização e talvez até de nossa espécie, dependem inexoravelmente das relações que teremos com toda forma de vida e não vida no planeta, de nossa percepção sobre nós mesmos nessa “pequena bola de terra molhada flutuando no espaço”.
Saymon
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Imprensa e democracia
Duas décadas de ditadura militar deixaram marcas indeléveis na sociedade brasileira e mesmo com a democracia formal já restabelecida há mais de vinte anos, os traumas da censura e das restrições às liberdades civis ainda assombram as gerações que viveram naqueles idos. Bom mesmo que assombrem, e que as novas gerações tomem em suas mãos a responsabilidade de nunca mais permitirem algo parecido como o regime instaurado em 1964. A liberdade, a crítica e a democracia são condições inclusive para pensarmos o socialismo no século XXI.
Porém, esse trauma causado pela noite que caiu sobre o Brasil após a deposição do presidente João Goulart, muitas vezes serve encobrir com o manto do “democratismo” grupos e práticas nada democráticos. Em nossos dias, qualquer referência que se faça no sentido de regulamentar ou mesmo responsabilizar setores da imprensa por suas práticas, soa como verdadeira heresia e prontamente os cavaleiros da pseudo-liberdade desembainham suas espadas.
A imprensa deve sim ser livre e desfrutar de toda liberdade, entretanto, como qualquer órgão público ou privado, precisa responder por suas práticas, se responsabilizar perante a sociedade, uma vez que está inserida até as entranhas nessa, não pairando angelicalmente e imparcialmente sobre o resto dos simples mortais. Tendo em conta, sobretudo, os grandes conglomerados de televisão, jornal, rádio e revista, temos que ponderar que tais veículos são empresas privadas, nas mãos de grupos sociais bastante específicos da elite brasileira e que dessa forma, muitas vezes possuem interesses que nada tem em comum com democracia ou justiça social. Essa gente tem interesse próprio e a preservação de seu capital e de sua influência raramente não está à frente do bem estar da sociedade.
Nesse sentido, a falta de fiscalização e de responsabilização dessas empresas de comunicação de massa, isso sim, pode representar riscos à democracia. Golpes são gestados nas páginas de revistas ou nas bancadas onde se diz “boa noite”. Governos são derrubados, planos econômicos boicotados, a “boataria” dissemina o pânico, a mentira e a calúnia denigrem biografias respeitáveis e as figuras mais deploráveis são colocadas como paladinos da virtude. A democracia é corroída, apodrece. A ilusão da falsa neutralidade obscurece os obscuros interesses de classe do “capitalista midiático”, ligado umbilicalmente aos setores mais reacionários e egoístas da sociedade brasileira.
Em uma sociedade com um judiciário independente, não atrelado ao poder executivo, parece extremamente salutar que a imprensa não fique acima do bem e do mal, como se fosse o anjo a decidir que vai pra tal ou qual barca. Só dessa forma podemos evitar que ela paire como uma guilhotina sobre a democracia.
Saymon de Oliveira Justo
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Balada do solitário.
Excita-se com o próprio corpo, deixando que hormônios e enzimas o subjuguem. Esta dominado desde sempre por eles. Suas glândulas funcionam a revelia de sua vontade, na verdade elas controlam suas vontades e desejos. Sua mente e consciência se percebem impotentes perante os imperativos colaterais do processo evolutivo da vida! Algo o impele irresistivelmente ao arcaísmo socialmente aprovado da reprodução e perpetuação da espécie. Ele se insurge contra a natureza das coisas. Mas a natureza é forte demais para ele.
Percebe sua mente como um epifenômeno aleatório do processo evolutivo; uma simples expressão imagética de interações químico/metabólicas a lhe comunicar ordens de movimento, direções de abordagem e comandos de ação. Ocorrendo na intrincada malha de seu córtex cinzento, este epifenômeno, a mente, é o para-brisa transparente de sua vida. Ela o protege dos elementos agressivos exógenos e o alimenta com representações endógenas das "coisas" exteriores. É um dos seus canais de interação. É através dela que se comunica com outras entidades solitárias: transmissor, gerador, receptor e processador. Inebria-se com suas próprias endorfinas, confina-se e concentra-se nas atividades que lhe suprem as necessidades prementes destes polipeptídeos. Diverte-se com os “estados psíquicos” que se sucedem em sua mente sob a influencia delas. Sonhos, idéias, devaneios, concepções e representações efêmeras recheiam seu consciente e inconsciente.
Ri-se de seu desengonço, tropeça seu pé esquerdo no direito, veste suas roupas ao contrário, esquece que deixou seus óculos no armário, assusta-se diante do espelho e de seu cabelo rarefeito e desfeito. Percebe os efeitos do tempo, da gravidade e dos atritos claramente estampados em seu rosto cansado. Não procura "passatempos". Não quer apressá-lo. Sabe que esta entidade abstrata e subjetiva, o tempo, tem grande valor e importância em todos os contextos imagináveis: pano de fundo tanto para a vida do Universo quanto para sua biografia. " - Os cronômetros e relógios são chefes implacáveis", pensa!
As vezes, lamenta-se de suas dores e do desamparo em que ficou. Outras, imagina que nunca mais o deixarão em paz!! Barganha um alívio momentâneo, ora, reza, suplica, medita e nem percebe que o sofrimento espontaneamente o deixou.
Ouve vozes pela casa e uma alegre expectativa de companhia o prepara para a conversação. Mas percebe que são apenas ecos de sua própria imaginação, reverberando entre os ângulos de sua caixa craniana em solidão. Então liga aparelhos sonoros que reproduzem e emitem harmonias, melodias, ritmos e compassos que o deleitam e relaxam "for a while". Árias, cadências, solos, cantatas e sonatas. Sinfonias, serenatas, tocatas, fugas e dissonâncias. " - Música! O que seria de mim sem 'ela'?!".
Quer dissipar, encobrir e se afastar de seus próprios odores. Mas admite-os e assume-os como parte do legado genético da espécie. De sua natureza animal herdou fragrâncias almiscaradas, cheiros e feromônios que despertavam, durante a evolução, reações em uma parceira predisposta. Mas de tanto dissimulá-los, modificá-los e alterá-los artificialmente, já não encontra nenhuma resposta delas por meio deles. "- O antigo ritual se tornou uma arte complexíssima, envolvendo hoje muito mais que atração selvagem...", pensa. Seu cheiro hoje é artificial, assim como sua vestimenta, sua rotina, parte de sua refeição e entretenimento, assim como sua própria vida e idealização.
O gosto de sua saliva não lhe sai da boca, e ele não se importa. Ele vibra suavemente com o ritmo de sua bomba cardíaca. Sente sua frequência se alterar conforme os pensamentos, os desejos, os temores, os anseios, as lembranças, as presenças e as imagens. Conforme o esforço e a coragem que se lhe exige. É um escravo deste órgão oco, tradicional sede metafórica da afetividade.
Às vezes se sente sufocar, então corre quilômetros e quilômetros deixando o ar invadir seus pulmões e afagar seu rosto, acreditando ter evitado, mais uma vez por um triz, a asfixia fatal. Agora é a transpiração a dilatar-lhe os poros, deixando sua garganta salgada. É a chegada da sede. Sua próxima meta demonstra todo o prosaísmo de sua existência: encontrar água bebível o mais rápido possível.
" - Aspirar, expirar, aspirar, expirar, aspirar e expirar". Cada um destes movimentos pode ser o último! O quanto é tênue a linha divisória entre a existência e a extinção. Basta deixar de aspirar por alguns minutos, e estará tudo acabado. Mas ele sabe que, se concentrar-se nesta frequência, a respiratória, acabará por alterá-la. “-Deixe-a no vegetativo/automático ou você vai pirar”.
Ele se cansa e desgasta no decorrer do dia e perambula desnorteado pela noite. Sabe que mais cedo ou mais tarde adormecerá. Mas não esta certo se despertará após cada sono! Pode morrer dormindo! "- Uau!". Se foi assim com alguns de seus antepassados, poderá ser assim com ele!
Ele vê suas feridas físicas se abrirem e fecharem. Mas outros tipos de ferida, as mentais, não se fecham nunca. Elas consomem-lhe energia vital e disposição. Para estas não há remédio. É necessário lutar contra a propensão que elas têm de levar-lhe ao buraco. São suas fraquezas, assim como o são seus instintos, inclinações, impulsos e tendências. O tratamento mais eficaz contra todas elas é um só: uma luta constante, rigorosa e impiedosa que lentamente exauri o lutador.
Ele oscila e vacila entre a crença na tradição religiosa que lhe parece infundada, e o crédito na teorização de cunho científico, que lhe decepcionou inúmeras vezes, mas que ainda assim é mais “terrena”. Desconfia de ambas, mas não prescinde de nenhuma, por via das dúvidas.
Sente-se atormentado diariamente pelas mesmas perguntas e formulações primevas, arcaicas: Ser ou não ser? Ter ou não ter? Fazer ou não fazer? Ir ou ficar? Começar ou terminar? Como foi? Como é? Como será? O que acontecerá? O que seria? Como? Por que? Onde? Quando? Quem? Quanto? Eu?!!
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